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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Sobre contar histórias

Dizem que Gabriel García Marquez é o último contador de histórias de verdade. Por mais que eu admire García Marquez, acho o título injusto. Existem excelentes contadores de histórias por aí. Porque contador de histórias não precisa ser regional, usar palavras inventadas, jogar com jargões seletos; contador de histórias precisa saber contar, tirar o fôlego, fazer o leitor passar pelas emoções descritas. O velho truque de Sherezade, é disso que é feito um contador de histórias. García Marquez é um deles, não há dúvida, mas ainda existem muitos outros por aí, escondidos ou não, assumidos ou não.

Ainda usando García Marquez como exemplo, dizem que ele resolveu escrever quando leu a primeira linha de Metamorfose, de Kafka. Eu nunca li Metamorfose - não vou fazer fita fingindo que li -, mas acredito que deve conter algo muito forte para despertar um contador de histórias como García Marquez. Eu acredito nessa coisa de ser desperto, sabe, apesar de eu mesma não me lembrar do que me fez ter vontade de escrever. Sempre gostei dessa coisa de inventar, anotar num caderno um monte de histórias malucas e entediar minha irmã com elas depois. Eu lembro que brincava com as outras meninas da rua e elas brigavam comigo porque eu inventava "sempre uma história diferente, por que não continuar com a da última vez?". As pessoas têm caminhos a escolher na vida e um deles leva ao que você é de verdade, à sua missão. O García Marquez encontrou a dele, que é ser contador de histórias - contador de histórias, o que é diferente de ser apenas um escritor - e a coisa deu tão certo que ele ganhou até o prêmio Nobel.

Algumas histórias precisam ser escritas, outras precisam ser contadas. As histórias contadas têm vida própria, elas ultrapassam o papel. Confuso? É, talvez um pouco, vou tentar colocar as coisas em ordem então... - bem, definitivamente, essas discussões do que é cânone e do que não é fermentam na cabeça da gente, né?.

Antigamente eu pensava que se fosse para escrever uma porcaria de um "romance de banca", era melhor não escrever nada. Hoje já não acho que é bem assim que a coisa funciona. Para contar uma história, não importa se ela é um épico, um romance água-com-açúcar, um poema, uma fanfic, um quadrinho... não importa! O formato, o conteúdo, isso não importa. Não importa também se é material para best-seller, para prêmio Nobel, para blog de internet, para a cabeceira de gurias de 13 anos... não importa! O que importa mesmo é quem conta a história. Tá, eu sei que a maioria dos teóricos rejeita - e possivelmente sofre um ataque cardíaco depois - essa idéia, mas é a verdade. Okay, o leitor também é importante, obviamente, mas o contador de histórias (que pode ser um escritor ou não) é como um balanço que leva a história até as outras pessoas. É a corrente que liga. Um contador de histórias precisa ter um coração sincero. E isso quer dizer que ele não deve se importar se vai ser cânone ou não, se vai soar bonito ou não, o contador de histórias verdadeiro consegue captar o que a história precisa e dar a ela a forma que ela pediu. Isso é saber contar histórias. Não é enquadrar a história no formato X, é deixar a história dizer que formato é. Por isso que um contador de histórias precisa ter um bom ouvido além da habilidade com as palavras...

Stephen King (um contador de histórias da cidade) disse que sabe que suas histórias não são perfeitas e que nenhuma ficção o é (as histórias, assim como os homens, são humanas porque têm de passar por humanos para ter voz. Não é possível que sejam perfeitas pois a perfeição está além da nossa compreensão e percepção das coisas), mas disse que quando contava a trama de Roland de Gilead e seus companheiros em A Torre Negra conseguia cheirar a poeira e sentir o ranger do couro. É por isso que eu disse que Stephen King é um contador de histórias. Se você escreve e consegue fazer suas palavras saírem do papel, se consegue sentir o que seus personagens sentem, se suas mãos tremem, se sua respiração altera a cada passo, se você também cheira a poeira e sente o ranger do couro, então pode descansar em paz. Seu trabalho está mais que bem feito.

Alguém gostar ou não, é só efeito colateral.


Você diz a verdade, e eu digo obrigado.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Um outro pensamento (ou Finding my way)

Nossa, parece que mil anos se passaram desde a minha última postagem (lamento) nesse blog. E eu não percebi o quanto sentia falta disso aqui até agora. Eu preciso me expressar. Tem hora que o mundo parece sumir e eu preciso fazer alguma coisa, qualquer coisa pra conseguir respirar... É, eu preciso mesmo me expressar. É uma coisa que não se faz apenas por amor, mas por necessidade mesmo. Como uma grande tomada de fôlego antes do mergulho. E a palavra escrita funciona pra isso – seja ela num pedacinho de papel ou na forma de pixels num blog... Mas é que tanta coisa tem se passado na minha cabeça... ordenar as coisas tem ficado cada vez mais difícil...

Todas as pessoas no mundo passam por um período assim em suas vidas. É quando a cabeça fica com idéias demais. Você pára tudo e começa a tenta organizar, mas começa a perceber que algumas peças do quebra-cabeças estão sobrando. Aí é hora de jogar fora o que não serve, mas você não sabe o que não serve porque perdeu a tampa do jogo, o modelinho onde se olha a figura a ser montada... É uma sensação de perda por excesso; como - e vou usar uma imagem muito comum da literatura agora - descer uma escada à noite e esquecer o último degrau. Aquele instante de desespero em que o pé fica suspenso no ar, é essa a sensação. Como se preparar para comer 10 cubinhos de chocolate e descobrir que só tem oito, ou atravessar uma piscina a nado e perceber na metade do trajeto que não se tomou fôlego o suficiente... Você olha para o lado e não vê ninguém como você. Completamente outsider, fora do mundo, fora das coisas, fora de lugar. Todas as pessoas no mundo passam por isso - uma espécie de paranóia universal, ninguém é especial por se sentir essa, por mais que pense que seja -, algumas percebem. Outras não.

Quem não percebe esse sentimento sufocante de não saber para onde correr normalmente pensa que é só uma fase da vida, que vai passar. Daí essas pessoas saem com os amigos, tiram umas férias, uns dias na praia, escutam uma música triste. Mas eu não sou uma dessas pessoas. Feliz ou infelizmente (eu não sei) sou daquele tipo que percebe e sente a paranóia universal agindo, e não há saída com amigos, férias de lugar bem longe, praia e música triste existente suficiente no mundo que faça a sensação ir embora. É como estar na tomada de um filme onde o personagem é filmado em câmera lenta, num lugar desolado, com um olhar perdido nos caminhos além...

É muito fácil saber onde se quer chegar. É fácil escolher o alvo. A coisa complica nos meios. Como se chega lá, que caminho escolher. Às vezes você está num caminho e descobre que estava no caminho errado; ou você estava no caminho certo e alguém te disse que era o errado, então você voltou mas depois descobriu que o certo era aquele mesmo e agora não se lembra mais da entrada da primeira via; ou você simplesmente vai andando numa direção, de olhos vendados, porque tem medo demais de ver para onde está indo... A vida é andar num trecho escuro de floresta: você vê poucos passos à frente, morre de medo dos arbustos em volta e torce para que aquela direção seja a da clareira de sol.

Algumas pessoas pensam que sentar no chão e esperar é uma forma melhor. Mas uma vez uma amiga me mandou uma mensagem no celular (aquelas coisas inacreditáveis da vida) que dizia: "Mesmo se estiver no caminho certo, se sentar, será atropelada". Imagina então se você se sentar no caminho errado! É preciso ir em frente. E se não for por fé, então que seja por lógica. Outras pessoas ainda acham que vivem intensamente cada momento, quando na verdade estão morrendo instantaneamente a cada movimento. A diferença é tão tênue... e tão crucial! Às vezes é difícil perceber. Porque você não parou para pensar, não jogou as peças que sobraram fora...

Não é preciso ter uma coragem grifinória para mudar o mundo. Porque para mudar o mundo você precisa partir logo da parte mais difícil, que é você mesmo. Lutar contra si em busca do que é verdadeiro (eu gosto de acreditar que a verdade existe, e está aí em algum lugar além da nossa compreensão) é uma batalha que pouca gente gosta de lutar. É uma bandeira que ninguém quer carregar. Porque é muito pesada... A chance que você tem é agarrar aquele momento da sua vida onde as idéias se acumularam demais, onde se perdeu por excesso. Buscar essa solução, esse pontinho de luz quente, coisa que venho tentando fazer obcessivamente todas as manhãs, dói mais do que se pensa porque dói justamente onde não pode doer... O eu é uma chave que perdeu a fechadura...

Eu respiro fundo. Deixo a coisa fluir, deixar pra depois... mas não dá. Eu sou daquelas pessoas que tomou consciência desse sufocamento e não há nada mais perigoso no mundo que uma tomada de consciência. Muita gente diz que a ignorância é uma bênção. Pode até ser. Consciência traz responsabilidade... incomoda. Mas se for pra escolher, eu escolho a consciência. É fácil demais viver de olhos fechados, difícil mesmo é aprender a enxergar no escuro. Fugir é voltar todo o caminho escuro da floresta. Uma hora ou outra, você vai ter que encarar a trilha de novo. Então, não é melhor fazer tudo de uma vez? Tentar seguir em frente, mesmo que tropeçando e escolhendo uns caminhos errados de vez em quando, rumo a você mesmo?

O que se encontra quando você se encontra, eu não sei. A maioria das perguntas do mundo não têm resposta, porque quando se responde uma, mais outras tantas se abrem... Como entender todas as conexões, todas as possibilidades de vida que se pode ter? Todos os caminhos que podem ser trilhados? Quantas possibilidades se abriram quando você acordou de manhã; e você escolheu só uma, então para onde foram as outras e quais seriam elas? Por que você encontrou com determinadas pessoas ao longo da vida? Quem era aquele homem sentado ao seu lado no ônibus? Quem era aquela mulher que passou do outro lado da rua? Por que o caminho deles cruzaram com o seu? E se você tivesse dito olá e realizado uma possibilidade? Por que escolhemos um caminho e não o outro?

O sufocamento, essa angústia, essa reflexão desenfreada, esse... sentimento preso dentro de nós parece se desenrolar infinitamente e eu só queria poder catar tudo, colocar na bolsa e ir dormir! Mas não dá. Eu ainda não cheguei lá. Eu to parada no meio da encruzilhada e essa situação é que mortifica de verdade. O mundo parece tão complexo, tão complicado. E tudo isso que se avoluma no ser humano pelo menos uma vez na vida, essa paranóia universal que alguns percebem e outros não, é uma coisa tão simples, tão primária, que está aí desde que o mundo é mundo e se resume a duas considerações:

Quem sou eu
e o que estou fazendo aqui?










segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Com quantos lencinhos se faz um personagem querido

*Aviso: Essa coluna contém pequenos spoilers sobre o destino de algumas personagens de séries como Lost, Harry Potter, Senhor dos Anéis, Piratas do Caribe, Star Wars... Então fique avisado!*


O GRANDE ESPOILER DO TEXTO! (Lost)
Motivo: Comecei esse post depois de assistir à morte de Charlie Pace (personagem de Dominic Monaghan) no episódio Throught the looking glass part 2 do seriado Lost.


Eu chorei com a morte de Charlie três vezes e devo ter me desesperado pela iminência dela umas outras três enquanto assistia o seriado Lost. Mas é só um personagem, que bobeira!, muita gente pode dizer, mas ele era o meu favorito. Daqueles personagens que marcam a gente. E eu adoro personagens assim!

Percebi que Charlie Pace era o meu favorito em Lost quando ele é encontrado "morto" dependurado pelo pescoço numa árvore num episódio da primeira temporada da série. Eu e minha irmã - que assiste a série comigo - choramos desesperadamente até Jack ressucitá-lo com uma pancada no peito em meio a uma cena desesperada. O motivo da "morte" de Charlie era o resgate de uma moça grávida pela qual ele se apaixonara. Passional, ao encontrar o sequestrador dispara uma sequência de tiros no peito dele, sem se importar com as informações que o raptor poderia fornecer ao grupo. Mostra de crueldade... ou de humanidade?

Sempre achei a caracterização de Charlie bem humana (Aliás, humanidade é um crédito que dou aos personagens criados pelos roteiristas fodas de Lost), mas daquele tipo de humanidade que faz com que nos identifiquemos com ele, com seus problemas e desejos. Charlie era o cara bacana, gentil, que valorizava a família e a religião (difícil tirar da cabeç a cena de sua morte, onde ele utiliza as últimas forças para fazer o sinal da cruz). Era sensível, um artista talentoso apesar de ter desperdiçado criatividade na banda medíocre que montou com seu irmão Liam. Liam, aliás, é protagonista dos piores pesadelos e assombrações de Charlie, na maioria das vezes acompanhando um punhado de heroína.

Enquanto o vôo 815 da Oceanic caía na misteriosa ilha, Charlie usava heroína no banheiro do avião. A relação da personagem com vício das drogas é explorada na primeira e na segunda temporada. Descobrimos que Charlie é levado à heroína por influência de seu irmão. Auto-confiança nunca foi lá a maior característica da personagem, e numa crise de frustração, Charlie toma sua primeira dose. Suas crises de consciência são realmente interessantes, assim como as escolhas que ele toma para se livrar - ou não - da heroína. Esse conflito entre o cara de bom coração, as drogas e o irmão influenciável me faz lembrar horrores de uma outra série muito querida por mim, que tem um personagem no esquema. É Eddie Dean, de A Torre Negra.

Eddie também é viciado em heroína e também foi influenciado pelo irmão mais velho sem noção (um rapaz simpático chamado Henry). No universo criado por Stephen King, Eddie é escolhido para ser um dos membros da companhia de Roland de Gilead, o último pistoleiro. Arrastado para o Mundo Médio (uma espécie de universo paralelo ao nosso), Eddie sofre para se adaptar e principalmente, para aprender a viver sem heroína. Os dois têm realmente muito em comum: são inseguros, passionais, carismático e têm sempre uma piada na ponta da língua - referência à cultura pop são com eles mesmo. Até mesmo o processo para se livrarem das drogas é bem semelhante: Charlie consegue isso com a ajuda de Locke e de uma imensa força interna que ele mesmo não sabia existir; Eddie, perdido numa praia perigosa num mundo estranho ao lado de um pistoleiro moribundo, é obrigado a lutar para sobreviver e encontra motivo na pessoa de Susannah, a mulher de múltiplas personalidades que se torna sua esposa. O amor, em ambos, é motivo para mudança: Charlie se apaixona por Claire (a moça que fora raptada), chegando até mesmo a amar o filho dela como se fosse seu; o amor de Eddie por Susannah é a força que faz com que ela consiga uma certa instabilidade e se torne uma pessoa una. Charlie e Eddie são pessoas essencialmente boas, eles nunca planejaram algo ruim; se se envolveram com crime, drogas ou violência, foi por má sorte e falta de confiança. Esse lado é mostrado de forma muito forte nas duas séries: para Charlie, no episódio Greatest Hits e para Eddie, no volume Terras Devastadas.


Por que fazer essa "literatura comparada" agora? Porque percebi como os personagens que mais amo, que me fazem rir e chorar, que me fazem torcer, pular, gritar, xingar e vibrar possuem traços em comuns. Alguns é claro, não são tão parecidos quanto Charlie Pace e Eddie Dean, mas eles dividem algumas características primordiais de encantamento, não é a toa que muita gente se identifique com eles....


Temos por exemplo Luke Skywalker, o grande herói dos episódios IV, V e VI de Star Wars. Luke não era nenhum viciado, é claro, mas tinha grande insegurança, apesar do desejo latente de fazer algo bom para o mundo. Insegurança essa que pode ser encontrada em Ron Weasley, o melhor amigo de Harry Potter, que sempre se sentiu inferior e arrastado pelas circunstâncias. Como esquecer de Sam Gamgi, o eterno companheiro de Frodo em sua jornada com o Anel? Ou do Dwayne, em Pequena Miss Sunshine? Vale lembrar também do pirata trapaceiro Jack Sparrow, que se torna herói após se sacrificar em nome dos amigos - e em nome de seu próprio nome, é claro - em Piratas do Caribe - O Baú da Morte. Sacrifício aliás, que faz Luke Skywalker em O Retorno de Jedi, que faz Charlie Pace em Throught the looking glass.

Personagens assim encantam o público. Ganham a platéia pelo coração no primeiro momento. Seja belo bom coração, pelos problemas comuns, pelos sacrifícios que fazem. É com esses personagens que estamos durante a trama. E algumas pessoas levam de uma forma bem pessoal. Eu, por exemplo. Eu me apego. Me apego mesmo. É impossível não chorar com Rudy Steiner no final de A menina que roubava livros, é impossível! Te arranca as tripas, você sente que podia ser você, seu amigo, seu namorado. Podia ser qualquer um! Essa é a grande chave de personagens assim. Sua singularidade reside no fato de que poderiam ser qualquer pessoa.


Eu tenho minha própria teoria de narrativa, e ela diz que uma história que não possui personagens assim, uma trama que não tem personagens queridos para quem se possa tirar os lenços do bolso, não é uma história completa. Faltará sempre um pedaço. Um elo identificador. O tema da frustração, do sacrifício, da lealdade mostrados da forma mais real, não como algo além da imaginação. A hunidade que não é cruel, que não é dura, que não é boa, que é simplesmente humanidade. Que dá alguma esperança. Você chora no fim do filme, seja ele feliz ou triste, e diz "Putz, fulano é que era o herói".

O Charlie Pace é que era o herói no fim das contas, aceitou a morte e foi. Foi sem medo. Para salvar aquelas que amava. E eu não tenho nenhum motivo para esconder que eu me comovi (leia-se me acabei de tanto chorar). Muita gente diz que esse tipo de personagem é típico de escritor/diretor que gosta de comoção barata, de choro e de vela; se for, problemas, porque é simplesmente o máximo! Quem é que não gosta de finais triunfantes e gloriosos? Quem não cai de amores por personagens assim?





Só quem não tem coração mesmo.






*Post dedicado a todos aqueles que amam personagens que nos fazem levar pelo menos uma caixa de lencinho de papel no bolso quando vê um filme, lê um livro ou vibra com uma série de TV. Em especial, para as outras viúvas do baixista.






sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Um sentimento



Now it´s three in the morning and you´re eating alone

Oh the heart beats in its cage


- Heart in a cage - The Strokes

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Assim como Liesel

Eu pensei que não escreveria sobre esse livro tão cedo, mas acho que algumas coisas estão além do meu controle. Uma delas é a minha Vontade de escrever. Vontade com letra maiúscula, porque ela tem vida própria...

Tudo bem que a Vontade não veio do nada - como muita gente inocentemente acredita por aí -, mas não deixou de vir inesperadamente. E isso tudo por causa de dois segundos numa tela de televisão. Pois é, era o Markus Zusak na bienal do livro; meu pai gritou e eu fui correndo ver. Nâo sei porquê, mas foi uma imagem tão bacana... O Zusak lá com aquela cara de bom rapaz, um monte de gente em volta, a promoção do livro logo atrás... A Vontade não chegou naquela hora, claro que não - criaturinha voluntariosa ela é - mas ficou pregada na minha orelha, falando baixinho. E agora ela resolveu gritar... então aqui estou.

A menina que roubava livros é envolvente. Nâo tem outra palavra para descrever. Você começa a ler, estranha de início, e depois é completamente absorvido pela atmosfera mágica que esse livro cria. A história se passa na Alemanha Nazista como tantas outras, mas tem seu toque especial. A narrativa é fragmentada, cheia de idas e voltas. A ordem não é cronológica. A Morte - narradora de todos os eventos - acaba se tornando mais uma das personagens com seus comentários vivos (ironicamente) e pontuais. As personagens... ah, as personagens são a alma do livro! Merecem um parágrafo à parte...

Todos eles são bem construídos, complexos naquela atmosfera de simplicidade da Molching. O casal Hubberman, a mulher do prefeito, Max, os Steiner... os Steiner. Isso me faz ter que falar de Rudy. Meu favorito. Rudy é... Rudy. Simples, decidido, com muita força de vontade. O namorado que a menina nunca teve, é um título lindo para ele. Acho que não é possível alguém ler A menina que roubava livros sem cair de amores por Rudy Steiner. Por sua humanidade. Pelo modo de como ele se aproxima tanto de nós... e de Liesel. Liesel Meminger, a menina que roubava livros. Que encontrou a morte de três formas tão impactantes, que a própria Morte resolveu contar a história dela.

Eu me impacientei um pouco com as palavras em alemão de início, mas depois percebi que não havia vocativo melhor para alguém naquele livro que não fosse Saurkel... Engraçado como a gente consegue entender uma outra língua sem realmente saber essa língua. Bacana como isso foi mostrado no livro. Faz parte da própria narrativa. Faz parte do ritmo da história.

Interessante também é o modo de como a história se constrói de outras história. É um livro contado por alguém que leu outro livro (no caso, a Morte é quem lê); e este livro, por sua vez, foi escrito originalmente por Liesel, baseada no livro de Max. Planos interessantes, não? Isso sem levar em conta os planos das personagens mais secundárias...

Podem dizer o que quiserem, mas A menina que roubava livros é literatura da melhor qualidade. Se teve um final típico e cliché, se foi o reconto de uma realidade, se criou personagens apenas para cumprir uma função emocional, se foi ruim por qualquer desses argumentos - ou outros - de teóricos literários, não importa. Isso aqui é literatura da nata. Mostra o melhor da humanidade, o melhor do ser humano e de uma forma naturalmente verdadeira, tão nitidamente verossímel. Literatura.

É um texto fragmentado, mas não consigo imaginar outro modo de falar sobre este livro. Só quem lê sabe. Além do mais, a Vontade é feita de algumas nuances que às vezes a gente não entende... A Vontade é fragmentada lá à seu modo. Conta suas histórias do jeito Dela.

Assim como Liesel.




domingo, 12 de agosto de 2007

Avô deserda Paris Hilton

Quando eu li essa notícia, três reações diferentes desencadearam ao mesmo tempo:

1 - Bem feito, aquela vaca! Se ferrou.
2 - Quem se importa?
3 - Golpe da mídia, mas que lixo!

É engraçado que quando o assunto se volta para a vida das celebridades, todo mundo enche o peito para dizer: "Mas é uma mesquinharia mesmo. Como se a gente estivesse interessado na vida deles. E a televisão empurra essa porcaria pra gente, como se fosse importante. Deviam investir em programas educativos que realmente ensinam as pessoas. Notícia de verdade". A maioria das pessoas presentes na conversa faz sinal de afirmação, algumas intervenções de concordância e no fim todos dizem o quanto o povão se deixa seduzir pelas pseudo-notícias. O mundo é lindo, as pessoas têm senso crítico, todos vamos viver felizes como irmãos pelo resto da eternidade... e bla bla bla. Acontece que em toda sala de espera de consultório médico ou dentário sempre tem uma revista ´Caras´. E todo mundo lê.

É inevitável. Você está lá sentado - numa cadeira que nem sempre é confortável - observando uma secretária - que nem sempre é agradável - antotar alguma coisa ou tomar o cadastro de algum outro paciente. A consulta como sempre está atrasada, já faz meia hora que você está olhando para a parede e de repente, num banquinho ao lado do lugar onde você está sentado está ´Malu Mader revela sua intimidade´. Quem resiste, né? O mundo conspirou para você pegar a revista e ler não só sobre a intimidade de Malu Mader, mas também sobre o fim do namoro da Débora Secco ("mocinha desfrutável!"), sobre a casa nova que o Fábio Júnior ("como se ele não tivesse muitas!") comprou e sobre o escândalo que foi a Lindsay Lohan aparecer sem calcinha numa festa ("aquela vadia!"). Nessas horas você esquece que normalmente é contra essas pseudo-notícias. Se esquece de que diz para todos os seus amigos que bom mesmo é ler ´Superinteressante´ ou, quando quer impressionar mesmo, ´Carta Capital´. Porque nessas horas o que realmente importa é que a Xuxa emagreceu 10 quilos! ("Magrela!")

A humanidade sofre do que eu chamo de fetiche do holofote. Vontade de estar lá sob as luzes da ribalta, de conhecer o mundo por trás da cortina de seda que é o show bizz. Chegar perto daqueles que estão lá em cima, conhecer seus segredos, se aproximar deles. Sentir, mesmo que seja falsamente, que estão perto deles... Porque em cima do palco o mundo é melhor. Em cima do palco as pessoas são mais bonitas, são mais bem vestidas. Em cima do palco os casamentos são perfeitos, as chances de criar uma ruga são mínimas e os rios de dinheiro... ah, os rios de dinheiro! Todo mundo quer ser famoso. E quando não dá, ler uma nota ou outra sobre o vestido novo da Sarah Jessica Parker ajuda a matar um pouquinho do desejo...

O problema é que humanos são bichos estranhos. São complexos, são paradoxais, são loucos, são esquisitos e principalmente, têm uma necessidade compulsiva de criar problemas. O problema do fetiche do holofote é: vamos fingir que somos cults, não ligamos para essa porcaria. E no fundo uma vontade louca de saber se a Angelina Jolie vive feliz com o Brad Pitt lateja no peito. Negação. Qual a solução para dar vazão a essa frustração? (quantos -ãos... rs) JOGA PEDRA NA GENI!

Ah, que alívio descobrir que o Tom Cruise tem TOC e que o Leonardo diCaprio terminou com a Gisele. Só não foi melhor que ver a Britney ser internada três vezes seguidas numa clínica de reabilitação e a Paris Hilton ser presa por 23 dias. Já que não podemos ser como eles, que possamos ver que eles são como a gente, não? Pior que a gente. É o tipo de pensamento que conforta as pessoas. Ao mesmo tempo que veneram celebridades, têm um prazer sádico em vê-las se darem mal. Eu disse que humanos eram estranhos.

Ninguém está livre da tentação de ler a manchete da ´Ti-ti-ti´ ou uma notinha da ´Querida´. Nem eu, nem você, leitor - que aposto que está agora mesmo dizendo que não lê essas porcarias sem conteúdo! -. Negação.

Será que tem mesmo algo de tão errado, de tão criminoso em ler "a última" na página principal do seu provedor? Será que vai pro inferno quem sabe qual o atual namorado da Jennifer Aniston? Será que é atestar seu baixo nível intelectual confessar em frente aos amigos que você achou horroroso o vestido da Helena Boham Carter na última Premiere do filme dela? (que é que era aquele echarpe, pelo hipogrifo sem dente!) Huuuuuuuuuum, acho que a resposta é não.

Mas existe uma coisa que realmente define a sua posição. Quando o dentista chama o seu nome você pára de ler. E aí, na volta pra casa, você lembra de outras coisas; daquele filme bacana que vocêu viu, ou da situação política do país; ou de uma piada realmente engraçada. Agora a notícia da Paris Hilton deserdada é um limbo na sua mente, e não faz diferença na sua vida... Afinal de contas, é só fruto de um complexo maluco da humanidade, não? É, não é tão importante assim..

Se três reações são desencadeadas ao mesmo tempo na sua mente com uma notícia desse tipo, não se preocupe, não há nada de errado com o seu cérebro. Você não será expulso do grupo dos nerds e seu livro favorito ainda pode ser O Senhor dos Anéis...