quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Um outro pensamento (ou Finding my way)

Nossa, parece que mil anos se passaram desde a minha última postagem (lamento) nesse blog. E eu não percebi o quanto sentia falta disso aqui até agora. Eu preciso me expressar. Tem hora que o mundo parece sumir e eu preciso fazer alguma coisa, qualquer coisa pra conseguir respirar... É, eu preciso mesmo me expressar. É uma coisa que não se faz apenas por amor, mas por necessidade mesmo. Como uma grande tomada de fôlego antes do mergulho. E a palavra escrita funciona pra isso – seja ela num pedacinho de papel ou na forma de pixels num blog... Mas é que tanta coisa tem se passado na minha cabeça... ordenar as coisas tem ficado cada vez mais difícil...

Todas as pessoas no mundo passam por um período assim em suas vidas. É quando a cabeça fica com idéias demais. Você pára tudo e começa a tenta organizar, mas começa a perceber que algumas peças do quebra-cabeças estão sobrando. Aí é hora de jogar fora o que não serve, mas você não sabe o que não serve porque perdeu a tampa do jogo, o modelinho onde se olha a figura a ser montada... É uma sensação de perda por excesso; como - e vou usar uma imagem muito comum da literatura agora - descer uma escada à noite e esquecer o último degrau. Aquele instante de desespero em que o pé fica suspenso no ar, é essa a sensação. Como se preparar para comer 10 cubinhos de chocolate e descobrir que só tem oito, ou atravessar uma piscina a nado e perceber na metade do trajeto que não se tomou fôlego o suficiente... Você olha para o lado e não vê ninguém como você. Completamente outsider, fora do mundo, fora das coisas, fora de lugar. Todas as pessoas no mundo passam por isso - uma espécie de paranóia universal, ninguém é especial por se sentir essa, por mais que pense que seja -, algumas percebem. Outras não.

Quem não percebe esse sentimento sufocante de não saber para onde correr normalmente pensa que é só uma fase da vida, que vai passar. Daí essas pessoas saem com os amigos, tiram umas férias, uns dias na praia, escutam uma música triste. Mas eu não sou uma dessas pessoas. Feliz ou infelizmente (eu não sei) sou daquele tipo que percebe e sente a paranóia universal agindo, e não há saída com amigos, férias de lugar bem longe, praia e música triste existente suficiente no mundo que faça a sensação ir embora. É como estar na tomada de um filme onde o personagem é filmado em câmera lenta, num lugar desolado, com um olhar perdido nos caminhos além...

É muito fácil saber onde se quer chegar. É fácil escolher o alvo. A coisa complica nos meios. Como se chega lá, que caminho escolher. Às vezes você está num caminho e descobre que estava no caminho errado; ou você estava no caminho certo e alguém te disse que era o errado, então você voltou mas depois descobriu que o certo era aquele mesmo e agora não se lembra mais da entrada da primeira via; ou você simplesmente vai andando numa direção, de olhos vendados, porque tem medo demais de ver para onde está indo... A vida é andar num trecho escuro de floresta: você vê poucos passos à frente, morre de medo dos arbustos em volta e torce para que aquela direção seja a da clareira de sol.

Algumas pessoas pensam que sentar no chão e esperar é uma forma melhor. Mas uma vez uma amiga me mandou uma mensagem no celular (aquelas coisas inacreditáveis da vida) que dizia: "Mesmo se estiver no caminho certo, se sentar, será atropelada". Imagina então se você se sentar no caminho errado! É preciso ir em frente. E se não for por fé, então que seja por lógica. Outras pessoas ainda acham que vivem intensamente cada momento, quando na verdade estão morrendo instantaneamente a cada movimento. A diferença é tão tênue... e tão crucial! Às vezes é difícil perceber. Porque você não parou para pensar, não jogou as peças que sobraram fora...

Não é preciso ter uma coragem grifinória para mudar o mundo. Porque para mudar o mundo você precisa partir logo da parte mais difícil, que é você mesmo. Lutar contra si em busca do que é verdadeiro (eu gosto de acreditar que a verdade existe, e está aí em algum lugar além da nossa compreensão) é uma batalha que pouca gente gosta de lutar. É uma bandeira que ninguém quer carregar. Porque é muito pesada... A chance que você tem é agarrar aquele momento da sua vida onde as idéias se acumularam demais, onde se perdeu por excesso. Buscar essa solução, esse pontinho de luz quente, coisa que venho tentando fazer obcessivamente todas as manhãs, dói mais do que se pensa porque dói justamente onde não pode doer... O eu é uma chave que perdeu a fechadura...

Eu respiro fundo. Deixo a coisa fluir, deixar pra depois... mas não dá. Eu sou daquelas pessoas que tomou consciência desse sufocamento e não há nada mais perigoso no mundo que uma tomada de consciência. Muita gente diz que a ignorância é uma bênção. Pode até ser. Consciência traz responsabilidade... incomoda. Mas se for pra escolher, eu escolho a consciência. É fácil demais viver de olhos fechados, difícil mesmo é aprender a enxergar no escuro. Fugir é voltar todo o caminho escuro da floresta. Uma hora ou outra, você vai ter que encarar a trilha de novo. Então, não é melhor fazer tudo de uma vez? Tentar seguir em frente, mesmo que tropeçando e escolhendo uns caminhos errados de vez em quando, rumo a você mesmo?

O que se encontra quando você se encontra, eu não sei. A maioria das perguntas do mundo não têm resposta, porque quando se responde uma, mais outras tantas se abrem... Como entender todas as conexões, todas as possibilidades de vida que se pode ter? Todos os caminhos que podem ser trilhados? Quantas possibilidades se abriram quando você acordou de manhã; e você escolheu só uma, então para onde foram as outras e quais seriam elas? Por que você encontrou com determinadas pessoas ao longo da vida? Quem era aquele homem sentado ao seu lado no ônibus? Quem era aquela mulher que passou do outro lado da rua? Por que o caminho deles cruzaram com o seu? E se você tivesse dito olá e realizado uma possibilidade? Por que escolhemos um caminho e não o outro?

O sufocamento, essa angústia, essa reflexão desenfreada, esse... sentimento preso dentro de nós parece se desenrolar infinitamente e eu só queria poder catar tudo, colocar na bolsa e ir dormir! Mas não dá. Eu ainda não cheguei lá. Eu to parada no meio da encruzilhada e essa situação é que mortifica de verdade. O mundo parece tão complexo, tão complicado. E tudo isso que se avoluma no ser humano pelo menos uma vez na vida, essa paranóia universal que alguns percebem e outros não, é uma coisa tão simples, tão primária, que está aí desde que o mundo é mundo e se resume a duas considerações:

Quem sou eu
e o que estou fazendo aqui?










terça-feira, 23 de outubro de 2007

Um sentimento #2



Can´t you see I´m crying
I don´t even like it



- Is this it? - The Strokes

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Com quantos lencinhos se faz um personagem querido

*Aviso: Essa coluna contém pequenos spoilers sobre o destino de algumas personagens de séries como Lost, Harry Potter, Senhor dos Anéis, Piratas do Caribe, Star Wars... Então fique avisado!*


O GRANDE ESPOILER DO TEXTO! (Lost)
Motivo: Comecei esse post depois de assistir à morte de Charlie Pace (personagem de Dominic Monaghan) no episódio Throught the looking glass part 2 do seriado Lost.


Eu chorei com a morte de Charlie três vezes e devo ter me desesperado pela iminência dela umas outras três enquanto assistia o seriado Lost. Mas é só um personagem, que bobeira!, muita gente pode dizer, mas ele era o meu favorito. Daqueles personagens que marcam a gente. E eu adoro personagens assim!

Percebi que Charlie Pace era o meu favorito em Lost quando ele é encontrado "morto" dependurado pelo pescoço numa árvore num episódio da primeira temporada da série. Eu e minha irmã - que assiste a série comigo - choramos desesperadamente até Jack ressucitá-lo com uma pancada no peito em meio a uma cena desesperada. O motivo da "morte" de Charlie era o resgate de uma moça grávida pela qual ele se apaixonara. Passional, ao encontrar o sequestrador dispara uma sequência de tiros no peito dele, sem se importar com as informações que o raptor poderia fornecer ao grupo. Mostra de crueldade... ou de humanidade?

Sempre achei a caracterização de Charlie bem humana (Aliás, humanidade é um crédito que dou aos personagens criados pelos roteiristas fodas de Lost), mas daquele tipo de humanidade que faz com que nos identifiquemos com ele, com seus problemas e desejos. Charlie era o cara bacana, gentil, que valorizava a família e a religião (difícil tirar da cabeç a cena de sua morte, onde ele utiliza as últimas forças para fazer o sinal da cruz). Era sensível, um artista talentoso apesar de ter desperdiçado criatividade na banda medíocre que montou com seu irmão Liam. Liam, aliás, é protagonista dos piores pesadelos e assombrações de Charlie, na maioria das vezes acompanhando um punhado de heroína.

Enquanto o vôo 815 da Oceanic caía na misteriosa ilha, Charlie usava heroína no banheiro do avião. A relação da personagem com vício das drogas é explorada na primeira e na segunda temporada. Descobrimos que Charlie é levado à heroína por influência de seu irmão. Auto-confiança nunca foi lá a maior característica da personagem, e numa crise de frustração, Charlie toma sua primeira dose. Suas crises de consciência são realmente interessantes, assim como as escolhas que ele toma para se livrar - ou não - da heroína. Esse conflito entre o cara de bom coração, as drogas e o irmão influenciável me faz lembrar horrores de uma outra série muito querida por mim, que tem um personagem no esquema. É Eddie Dean, de A Torre Negra.

Eddie também é viciado em heroína e também foi influenciado pelo irmão mais velho sem noção (um rapaz simpático chamado Henry). No universo criado por Stephen King, Eddie é escolhido para ser um dos membros da companhia de Roland de Gilead, o último pistoleiro. Arrastado para o Mundo Médio (uma espécie de universo paralelo ao nosso), Eddie sofre para se adaptar e principalmente, para aprender a viver sem heroína. Os dois têm realmente muito em comum: são inseguros, passionais, carismático e têm sempre uma piada na ponta da língua - referência à cultura pop são com eles mesmo. Até mesmo o processo para se livrarem das drogas é bem semelhante: Charlie consegue isso com a ajuda de Locke e de uma imensa força interna que ele mesmo não sabia existir; Eddie, perdido numa praia perigosa num mundo estranho ao lado de um pistoleiro moribundo, é obrigado a lutar para sobreviver e encontra motivo na pessoa de Susannah, a mulher de múltiplas personalidades que se torna sua esposa. O amor, em ambos, é motivo para mudança: Charlie se apaixona por Claire (a moça que fora raptada), chegando até mesmo a amar o filho dela como se fosse seu; o amor de Eddie por Susannah é a força que faz com que ela consiga uma certa instabilidade e se torne uma pessoa una. Charlie e Eddie são pessoas essencialmente boas, eles nunca planejaram algo ruim; se se envolveram com crime, drogas ou violência, foi por má sorte e falta de confiança. Esse lado é mostrado de forma muito forte nas duas séries: para Charlie, no episódio Greatest Hits e para Eddie, no volume Terras Devastadas.


Por que fazer essa "literatura comparada" agora? Porque percebi como os personagens que mais amo, que me fazem rir e chorar, que me fazem torcer, pular, gritar, xingar e vibrar possuem traços em comuns. Alguns é claro, não são tão parecidos quanto Charlie Pace e Eddie Dean, mas eles dividem algumas características primordiais de encantamento, não é a toa que muita gente se identifique com eles....


Temos por exemplo Luke Skywalker, o grande herói dos episódios IV, V e VI de Star Wars. Luke não era nenhum viciado, é claro, mas tinha grande insegurança, apesar do desejo latente de fazer algo bom para o mundo. Insegurança essa que pode ser encontrada em Ron Weasley, o melhor amigo de Harry Potter, que sempre se sentiu inferior e arrastado pelas circunstâncias. Como esquecer de Sam Gamgi, o eterno companheiro de Frodo em sua jornada com o Anel? Ou do Dwayne, em Pequena Miss Sunshine? Vale lembrar também do pirata trapaceiro Jack Sparrow, que se torna herói após se sacrificar em nome dos amigos - e em nome de seu próprio nome, é claro - em Piratas do Caribe - O Baú da Morte. Sacrifício aliás, que faz Luke Skywalker em O Retorno de Jedi, que faz Charlie Pace em Throught the looking glass.

Personagens assim encantam o público. Ganham a platéia pelo coração no primeiro momento. Seja belo bom coração, pelos problemas comuns, pelos sacrifícios que fazem. É com esses personagens que estamos durante a trama. E algumas pessoas levam de uma forma bem pessoal. Eu, por exemplo. Eu me apego. Me apego mesmo. É impossível não chorar com Rudy Steiner no final de A menina que roubava livros, é impossível! Te arranca as tripas, você sente que podia ser você, seu amigo, seu namorado. Podia ser qualquer um! Essa é a grande chave de personagens assim. Sua singularidade reside no fato de que poderiam ser qualquer pessoa.


Eu tenho minha própria teoria de narrativa, e ela diz que uma história que não possui personagens assim, uma trama que não tem personagens queridos para quem se possa tirar os lenços do bolso, não é uma história completa. Faltará sempre um pedaço. Um elo identificador. O tema da frustração, do sacrifício, da lealdade mostrados da forma mais real, não como algo além da imaginação. A hunidade que não é cruel, que não é dura, que não é boa, que é simplesmente humanidade. Que dá alguma esperança. Você chora no fim do filme, seja ele feliz ou triste, e diz "Putz, fulano é que era o herói".

O Charlie Pace é que era o herói no fim das contas, aceitou a morte e foi. Foi sem medo. Para salvar aquelas que amava. E eu não tenho nenhum motivo para esconder que eu me comovi (leia-se me acabei de tanto chorar). Muita gente diz que esse tipo de personagem é típico de escritor/diretor que gosta de comoção barata, de choro e de vela; se for, problemas, porque é simplesmente o máximo! Quem é que não gosta de finais triunfantes e gloriosos? Quem não cai de amores por personagens assim?





Só quem não tem coração mesmo.






*Post dedicado a todos aqueles que amam personagens que nos fazem levar pelo menos uma caixa de lencinho de papel no bolso quando vê um filme, lê um livro ou vibra com uma série de TV. Em especial, para as outras viúvas do baixista.






sábado, 29 de setembro de 2007

Passagem - O Casamento

*Só mais uma coisa que me apareceu durante uma aula de Teoria II*



A dor no peito era tão forte que distorcia sua imagem no espelho.


- Venha, querida.

Ela olhou, magoada, para a porta; fechou os olhos com força e só depois voltou para encarar o cômodo em que se encontrava.

Havia algumas cadeiras e mesinhas de cor escura mais ao fundo; tudo tinha sido arrastado às pressas para dar lugar aos pertences da noiva. As grandes caixas – onde antes estivera o lindo vestido perolado – agora estavam vazias. Ninguém se dera ao trabalho de arrumar a bagunça. Pedaços de linha, retalhos, alfinetes no chão. As mulheres saíram correndo rindo alto, lançando um último olhar curioso à jovem noiva, e foram para a igreja esperar.

- Venha, querida.

Esperar.

Esperar porque as noivas sempre se atrasam. E a noiva estivera sozinha num cômodo nos fundos da igreja, na tentativa de não esperar demais...

- Venha, querida.

O espelho era grande, dava para ver o corpo inteiro refletido. E ela agora via com amor os detalhes mínimos daquele vestido tão querido. Como se cada pérola, brocado e lantejoula fosse na verdade um pedaço daqueles que esperavam lá fora.

(Esperar demais?)

- Venha, querida.

A voz agora estava mais firme. Mas não demais. A noiva deixou os olhos se encherem de lágrimas. Torceu as mãos com força, mas no fim não conseguiu suprimir mais o soluço. A mãe tinha dito para não chorar, para não borrar a maquiagem. “Deixe para chorar no altar, querida – ela dissera – segure bem, porque toda noiva fica emocionada mesmo”. Tentou engolir o choro com força, mas não conseguiu. Era grande demais.

- Venha, querida.

Pensou no noivo que já devia estar à sua espera no altar. No altar que tinha fitas brancas, como ela escolhera. O noivo não merecia que ela fosse daquela maneira. Não, não merecia.

O reflexo no espelho era uma imagem linda. A noiva no centro, com seu vestido imaculado, o buquê na mesinha logo atrás, a tiara relusindo...

- Venha, querida.

Ela soluçou alto mais uma vez, agora pensando no pai. Com quem ele entraria na igreja? Não, ele também não merecia aquilo. Não merecia.

- Venha, querida.

Era um sonho que ficava no espelho. Um instante congelado do que poderia ter sido. Respirou fundo. Não queria chorar numa hora daquelas.

- Venha, querida.

“Eu te amo”. Foi o último pensamento e o enviou ao noivo do altar de fitas brancas.

- Venha, querida.

Ela foi.

A morte, afinal, era doce e mansa, como embalo de berço.






sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Um sentimento



Now it´s three in the morning and you´re eating alone

Oh the heart beats in its cage


- Heart in a cage - The Strokes

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Assim como Liesel

Eu pensei que não escreveria sobre esse livro tão cedo, mas acho que algumas coisas estão além do meu controle. Uma delas é a minha Vontade de escrever. Vontade com letra maiúscula, porque ela tem vida própria...

Tudo bem que a Vontade não veio do nada - como muita gente inocentemente acredita por aí -, mas não deixou de vir inesperadamente. E isso tudo por causa de dois segundos numa tela de televisão. Pois é, era o Markus Zusak na bienal do livro; meu pai gritou e eu fui correndo ver. Nâo sei porquê, mas foi uma imagem tão bacana... O Zusak lá com aquela cara de bom rapaz, um monte de gente em volta, a promoção do livro logo atrás... A Vontade não chegou naquela hora, claro que não - criaturinha voluntariosa ela é - mas ficou pregada na minha orelha, falando baixinho. E agora ela resolveu gritar... então aqui estou.

A menina que roubava livros é envolvente. Nâo tem outra palavra para descrever. Você começa a ler, estranha de início, e depois é completamente absorvido pela atmosfera mágica que esse livro cria. A história se passa na Alemanha Nazista como tantas outras, mas tem seu toque especial. A narrativa é fragmentada, cheia de idas e voltas. A ordem não é cronológica. A Morte - narradora de todos os eventos - acaba se tornando mais uma das personagens com seus comentários vivos (ironicamente) e pontuais. As personagens... ah, as personagens são a alma do livro! Merecem um parágrafo à parte...

Todos eles são bem construídos, complexos naquela atmosfera de simplicidade da Molching. O casal Hubberman, a mulher do prefeito, Max, os Steiner... os Steiner. Isso me faz ter que falar de Rudy. Meu favorito. Rudy é... Rudy. Simples, decidido, com muita força de vontade. O namorado que a menina nunca teve, é um título lindo para ele. Acho que não é possível alguém ler A menina que roubava livros sem cair de amores por Rudy Steiner. Por sua humanidade. Pelo modo de como ele se aproxima tanto de nós... e de Liesel. Liesel Meminger, a menina que roubava livros. Que encontrou a morte de três formas tão impactantes, que a própria Morte resolveu contar a história dela.

Eu me impacientei um pouco com as palavras em alemão de início, mas depois percebi que não havia vocativo melhor para alguém naquele livro que não fosse Saurkel... Engraçado como a gente consegue entender uma outra língua sem realmente saber essa língua. Bacana como isso foi mostrado no livro. Faz parte da própria narrativa. Faz parte do ritmo da história.

Interessante também é o modo de como a história se constrói de outras história. É um livro contado por alguém que leu outro livro (no caso, a Morte é quem lê); e este livro, por sua vez, foi escrito originalmente por Liesel, baseada no livro de Max. Planos interessantes, não? Isso sem levar em conta os planos das personagens mais secundárias...

Podem dizer o que quiserem, mas A menina que roubava livros é literatura da melhor qualidade. Se teve um final típico e cliché, se foi o reconto de uma realidade, se criou personagens apenas para cumprir uma função emocional, se foi ruim por qualquer desses argumentos - ou outros - de teóricos literários, não importa. Isso aqui é literatura da nata. Mostra o melhor da humanidade, o melhor do ser humano e de uma forma naturalmente verdadeira, tão nitidamente verossímel. Literatura.

É um texto fragmentado, mas não consigo imaginar outro modo de falar sobre este livro. Só quem lê sabe. Além do mais, a Vontade é feita de algumas nuances que às vezes a gente não entende... A Vontade é fragmentada lá à seu modo. Conta suas histórias do jeito Dela.

Assim como Liesel.




quinta-feira, 6 de setembro de 2007

A Torre Negra de King

*Sem spoilers, pode ler sem medo*




Stephen King diz ter concebido o que viria a ser o início da série A Torre Negra aos 19 anos. 19; o número-chave da série. E o número de vezes em que você provavelmente não vai conseguir dormir, porque além da angústia-regra que produz cada livro de King, esse, em especial, leva o nosso pensamento longe e podemos sentir que somos parte da companhia de Roland de Gilead, o último pistoleiro, rumo à lendária Torre Negra - eixo de todo tempo e espaço.

A história é ambientada numa espécie de mundo pós-apocaliptico, mas com claras influências medievais. Influência, aliás, é o que não falta nessa série e King não as nega. Na contra-capa da edição brasileira e no prólogo dos volumes da série podemos ler com todas as letras "baseado no poema ´Childe Roland à Torre Negra chegou´ e no universo de J.R.R.Tolkien". E não pára por aí. Temos referências à lenda de Rei Arthur, músicas dos Beatles tocando em pubs em bares duvidosos no meio do deserto, bandidos malvadões com máscaras de vilões da Marvel e referências mil à cultura contemporânea geral. Só mesmo alguém como King para ter a coragem de admitir que não bebeu da fonte, nadou na fonte, e com a água batizou seu novo mundo de Mundo Médio. Sugestivo, não?

Ah, mais que isso são as ligações que King faz com suas outras obras e com sua própria vida. A série A Torre Negra é uma miscelânia de lugares, personagens, fatos e ironias deliciosamente agudas; daquelas que fazem o leitor de outros livros do autor rirem de orelha a orelha. A série é realmente a grande obra de King, não por ter levado décadas para ser escrita, mas porque contém em seu universo todos os outros do autor.

O primeiro volume, O Pistoleiro, nos apresenta o herói (herói?) da história, Roland de Gilead, um personagem que poderia ter saído de um filme faroeste clássico. Roland está na cola do Homem de Preto (ah, isso não é um spoiler, é a primeira linha do livro rs), uma busca menor dentro da grande ambição de sua vida que é chegar à Torre Negra. O mundo de Roland está deteriorado a tal ponto que tempo e espaço já não são mais os mesmos. A salvação pode ser a Torre. O livro é bem imaturo e a escrita é estranha, algumas idéias não são bem conectadas; mas a história já começa a envolver. Vale a pena ter força de vontade e seguir até o primoroso fim. Não vão se arrepender.

Em A Escolha dos Três, o segundo volume da saga, Roland - um andarilho solitário por natureza - descobre que precisa trabalhar em grupo. E é aí que conhecemos Eddie Dean - um viciado em heroína da Nova York dos anos 80, Odetta/Detta/Susannah - uma esquizofrênica negra sem as duas pernas da Nova York dos anos 60 e Jake Chambers - um garoto de 12 anos (que já havia sido companheiro de Roland em outro mundo...) da Nova York dos anos 70. Juntos eles formam Ka-tet (um de muitos) e descobrem como suas vidas estão intimamente entrelaçadas com o caminho da Torre.

Terras Desvastadas, o terceiro volume, é simplesmente maravilhoso. Aí sim temos King em sua melhor forma e já bem mais maduro. Diferente dos outros volumes anteriores, esse é devorável e repleto de ação. Com sacadas bem inteligentes e personagens maravilhosamente descritos. Os conflitos são sensíveis e os vilões reais começam a dar as caras.

O quarto capítulo, Mago e Vidro, narra o passado do pistoleiro Roland de Gilead. Esse livro é arrepiante. A série volta à adolescência de Roland, à sua primeira missão numa cidadezinha chamada Mejis e à uma moça chamada Susan Delgado. Apesar de delongar demais em alguns detalhes e chegar a entediar, quando o circo pega fogo na história pega fogo mesmo. Os conflitos já não são mais internos; quando chegamos ao final do livro, é difícil saber quem está certo e quem está errado. Além disso, é um divisor de águas na série.

Lobos de Calla é cheio de respostas (mas de lambugem, vêm mais um milhão de perguntas). O ka-tet vai para a estranha cidade de Calla Bryn Sturgis e mais uma vez os conflitos internos se soprepõem aos externos. A trilha para a Torre começa a ser mapeada, mas como tudo mais em King, sempre falta alguém para ler o mapa. A aparição sensacional de um personagem de outro livro de King dá um sabor especial a essa história.

O sexto volume é intulado a Canção de Susannah. O desenvolvimento do volume inteiro dá-se no breve período de um dia. Surpreendente, chocante, eletrizante, aterrorizante, angustiante e mais um bocado de outros -ante por aí, o livro é surpresa atrás de surpresa do início ao fim e está repleto das sacadas das mais geniais. Vale a pena ler a série inteira só pra chegar nesse ponto da história.

A Torre Negra é o volume que encerra a série, mas eu ainda não li. O motivo direto é porque ainda não tive tempo (leia-se dinheiro); e o indireto é porque quero saborear ainda mais um pouquinho essa série. Confesso que me surpreendi muito, muito mesmo, com esses livros. Não que duvidasse da capacidade do ´Tio Stevie´ de criar boas histórias, mas porque há uma filosofia bem composta e cadência de idéias impressionantes nesse novo universo. Ao mesmo tempo que é atual com suas incontáveis referências ao "nosso mundo", a ´Torre Negra´ retoma o sabor das narrativas fantásticas clássicas, do mundo do extraordinário. E essa mistura do contemporâneo com o fantástico é que dá o toque especial.

A ´Torre Negra´ é o eixo do tempo-espaço, mas também é o eixo central da obra de King; e porque não dizer eixo de todas as narrativas de fantasia e do pensamento do mundo contemporâneo? Oras, como diria Jake Chambers, há outros mundos além desse.

E essa série de King, como um desses mundos, vale a pena ser lida.