sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Um sentimento
Now it´s three in the morning and you´re eating alone
Oh the heart beats in its cage
- Heart in a cage - The Strokes
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
Assim como Liesel
Eu pensei que não escreveria sobre esse livro tão cedo, mas acho que algumas coisas estão além do meu controle. Uma delas é a minha Vontade de escrever. Vontade com letra maiúscula, porque ela tem vida própria...
Tudo bem que a Vontade não veio do nada - como muita gente inocentemente acredita por aí -, mas não deixou de vir inesperadamente. E isso tudo por causa de dois segundos numa tela de televisão. Pois é, era o Markus Zusak na bienal do livro; meu pai gritou e eu fui correndo ver. Nâo sei porquê, mas foi uma imagem tão bacana... O Zusak lá com aquela cara de bom rapaz, um monte de gente em volta, a promoção do livro logo atrás... A Vontade não chegou naquela hora, claro que não - criaturinha voluntariosa ela é - mas ficou pregada na minha orelha, falando baixinho. E agora ela resolveu gritar... então aqui estou.
A menina que roubava livros é envolvente. Nâo tem outra palavra para descrever. Você começa a ler, estranha de início, e depois é completamente absorvido pela atmosfera mágica q
ue esse livro cria. A história se passa na Alemanha Nazista como tantas outras, mas tem seu toque especial. A narrativa é fragmentada, cheia de idas e voltas. A ordem não é cronológica. A Morte - narradora de todos os eventos - acaba se tornando mais uma das personagens com seus comentários vivos (ironicamente) e pontuais. As personagens... ah, as personagens são a alma do livro! Merecem um parágrafo à parte...
Todos eles são bem construídos, complexos naquela atmosfera de simplicidade da Molching. O casal Hubberman, a mulher do prefeito, Max, os Steiner... os Steiner. Isso me faz ter que falar de Rudy. Meu favorito. Rudy é... Rudy. Simples, decidido, com muita força de vontade. O namorado que a menina nunca teve, é um título lindo para ele. Acho que não é possível alguém ler A menina que roubava livros sem cair de amores por Rudy Steiner. Por sua humanidade. Pelo modo de como ele se aproxima tanto de nós... e de Liesel. Liesel Meminger, a menina que roubava livros. Que encontrou a morte de três formas tão impactantes, que a própria Morte resolveu contar a história dela.
Eu me impacientei um pouco com as palavras em alemão de início, mas depois percebi que não havia vocativo melhor para alguém naquele livro que não fosse Saurkel... Engraçado como a gente consegue entender uma outra língua sem realmente saber essa língua. Bacana como isso foi mostrado no livro. Faz parte da própria narrativa. Faz parte do ritmo da história.
Interessante também é o modo de como a história se constrói de outras história. É um livro contado por alguém que leu outro livro (no caso, a Morte é quem lê); e este livro, por sua vez, foi escrito originalmente por Liesel, baseada no livro de Max. Planos interessantes, não? Isso sem levar em conta os planos das personagens mais secundárias...
Podem dizer o que quiserem, mas A menina que roubava livros é literatura da melhor qualidade. Se teve um final típico e cliché, se foi o reconto de uma realidade, se criou personagens apenas para cumprir uma função emocional, se foi ruim por qualquer desses argumentos - ou outros - de teóricos literários, não importa. Isso aqui é literatura da nata. Mostra o melhor da humanidade, o melhor do ser humano e de uma forma naturalmente verdadeira, tão nitidamente verossímel. Literatura.
É um texto fragmentado, mas não consigo imaginar outro modo de falar sobre este livro. Só quem lê sabe. Além do mais, a Vontade é feita de algumas nuances que às vezes a gente não entende... A Vontade é fragmentada lá à seu modo. Conta suas histórias do jeito Dela.
Assim como Liesel.
Tudo bem que a Vontade não veio do nada - como muita gente inocentemente acredita por aí -, mas não deixou de vir inesperadamente. E isso tudo por causa de dois segundos numa tela de televisão. Pois é, era o Markus Zusak na bienal do livro; meu pai gritou e eu fui correndo ver. Nâo sei porquê, mas foi uma imagem tão bacana... O Zusak lá com aquela cara de bom rapaz, um monte de gente em volta, a promoção do livro logo atrás... A Vontade não chegou naquela hora, claro que não - criaturinha voluntariosa ela é - mas ficou pregada na minha orelha, falando baixinho. E agora ela resolveu gritar... então aqui estou.
A menina que roubava livros é envolvente. Nâo tem outra palavra para descrever. Você começa a ler, estranha de início, e depois é completamente absorvido pela atmosfera mágica q
ue esse livro cria. A história se passa na Alemanha Nazista como tantas outras, mas tem seu toque especial. A narrativa é fragmentada, cheia de idas e voltas. A ordem não é cronológica. A Morte - narradora de todos os eventos - acaba se tornando mais uma das personagens com seus comentários vivos (ironicamente) e pontuais. As personagens... ah, as personagens são a alma do livro! Merecem um parágrafo à parte...Todos eles são bem construídos, complexos naquela atmosfera de simplicidade da Molching. O casal Hubberman, a mulher do prefeito, Max, os Steiner... os Steiner. Isso me faz ter que falar de Rudy. Meu favorito. Rudy é... Rudy. Simples, decidido, com muita força de vontade. O namorado que a menina nunca teve, é um título lindo para ele. Acho que não é possível alguém ler A menina que roubava livros sem cair de amores por Rudy Steiner. Por sua humanidade. Pelo modo de como ele se aproxima tanto de nós... e de Liesel. Liesel Meminger, a menina que roubava livros. Que encontrou a morte de três formas tão impactantes, que a própria Morte resolveu contar a história dela.
Eu me impacientei um pouco com as palavras em alemão de início, mas depois percebi que não havia vocativo melhor para alguém naquele livro que não fosse Saurkel... Engraçado como a gente consegue entender uma outra língua sem realmente saber essa língua. Bacana como isso foi mostrado no livro. Faz parte da própria narrativa. Faz parte do ritmo da história.
Interessante também é o modo de como a história se constrói de outras história. É um livro contado por alguém que leu outro livro (no caso, a Morte é quem lê); e este livro, por sua vez, foi escrito originalmente por Liesel, baseada no livro de Max. Planos interessantes, não? Isso sem levar em conta os planos das personagens mais secundárias...
Podem dizer o que quiserem, mas A menina que roubava livros é literatura da melhor qualidade. Se teve um final típico e cliché, se foi o reconto de uma realidade, se criou personagens apenas para cumprir uma função emocional, se foi ruim por qualquer desses argumentos - ou outros - de teóricos literários, não importa. Isso aqui é literatura da nata. Mostra o melhor da humanidade, o melhor do ser humano e de uma forma naturalmente verdadeira, tão nitidamente verossímel. Literatura.
É um texto fragmentado, mas não consigo imaginar outro modo de falar sobre este livro. Só quem lê sabe. Além do mais, a Vontade é feita de algumas nuances que às vezes a gente não entende... A Vontade é fragmentada lá à seu modo. Conta suas histórias do jeito Dela.
Assim como Liesel.
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quinta-feira, 6 de setembro de 2007
A Torre Negra de King
Stephen King diz ter concebido o que viria a ser o início da série A Torre Negra aos 19 anos. 19; o número-chave da série. E o número de vezes em que você provavelmente não vai conseguir dormir, porque além da angústia-regra que produz cada livro de King, esse, em especial, leva o nosso pensamento longe e podemos sentir que somos parte da companhia de Roland de Gilead, o último pistoleiro, rumo à lendária Torre Negra - eixo de todo tempo e espaço.
A história é ambientada numa espécie de mundo pós-apocaliptico, mas com claras influências medievais. Influência, aliás, é o que não falta nessa série e King não as nega. Na contra-capa da edição brasileira e no prólogo dos volumes da série podemos ler com todas as letras "baseado no poema ´Childe Roland à Torre Negra chegou´ e no universo de J.R.R.Tolkien". E não pára por aí. Temos referências à lenda de Rei Arthur, músicas dos Beatles tocando em pubs em bares duvidosos no meio do deserto, bandidos malvadões com máscaras de vilões da Marvel e referências mil à cultura contemporânea geral. Só mesmo alguém como King para ter a coragem de admitir que não bebeu da fonte, nadou na fonte, e com a água batizou seu novo mundo de Mundo Médio. Sugestivo, não?
Ah, mais que isso são as ligações que King faz com suas outras obras e com sua própria vida. A série A Torre Negra é uma miscelânia de lugares, personagens, fatos e ironias deliciosamente agudas; daquelas que fazem o leitor de outros livros do autor rirem de orelha a orelha. A série é realmente a grande obra de King, não por ter levado décadas para ser escrita, mas porque contém em seu universo todos os outros do autor.
O primeiro volume, O Pistoleiro, nos apresenta o herói (herói?) da história, Roland de Gilead, um personagem que poderia ter saído de um filme faroeste clássico. Roland está na cola do Homem de Preto (ah, isso não é um spoiler, é a primeira linha do livro rs), uma busca menor dentro da grande ambição de sua vida que é chegar à Torre Negra. O mundo de Roland está deteriorado a tal ponto que tempo e espaço já não são mais os mesmos. A salvação pode ser a Torre. O livro é bem imaturo e a escrita é estranha, algumas idéias não são bem conectadas; mas a história já começa a envolver. Vale a pena ter força de vontade e seguir até o primoroso fim. Não vão se arrepender.
Em A Escolha dos Três, o segundo volume da saga, Roland - um andarilho solitário por natureza - descobre que precisa trabalhar em grupo. E é aí que conhecemos Eddie Dean - um viciado em heroína da Nova York dos anos 80, Odetta/Detta/Susannah - uma esquizofrênica negra sem as duas pernas da Nova York dos anos 60 e Jake Chambers - um garoto de 12 anos (que já havia sido companheiro de Roland em outro mundo...) da Nova York dos anos 70. Juntos eles formam Ka-tet (um de muitos) e descobrem como suas vidas estão intimamente entrelaçadas com o caminho da Torre.
Terras Desvastadas, o terceiro volume, é simplesmente maravilhoso. Aí sim temos King em sua melhor forma e já bem mais maduro. Diferente dos outros volumes anteriores, esse é devorável e repleto de ação. Com sacadas bem inteligentes e personagens maravilhosamente descritos. Os conflitos são sensíveis e os vilões reais começam a dar as caras.
O quarto capítulo, Mago e Vidro, narra o passado do pistoleiro Roland de Gilead. Esse livro é arrepiante. A série volta à adolescência de Roland, à sua primeira missão numa cidadezinha chamada Mejis e à uma moça chamada Susan Delgado. Apesar de delongar demais em alguns detalhes e chegar a entediar, quando o circo pega fogo na história pega fogo mesmo. Os conflitos já não são mais internos; quando chegamos ao final do livro, é difícil saber quem está certo e quem está errado. Além disso, é um divisor de águas na série.
Lobos de Calla é cheio de respostas (mas de lambugem, vêm mais um milhão de perguntas). O ka-tet vai para a estranha cidade de Calla Bryn Sturgis e mais uma vez os conflitos internos se soprepõem aos externos. A trilha para a Torre começa a ser mapeada, mas como tudo mais em King, sempre falta alguém para ler o mapa. A aparição sensacional de um personagem de outro livro de King dá um sabor especial a essa história.
O sexto volume é intulado a Canção de Susannah. O desenvolvimento do volume inteiro dá-se no breve período de um dia. Surpreendente, chocante, eletrizante, aterrorizante, angustiante e mais um bocado de outros -ante por aí, o livro é surpresa atrás de surpresa do início ao fim e está repleto das sacadas das mais geniais. Vale a pena ler a série inteira só pra chegar nesse ponto da história.
A Torre Negra é o volume que encerra a série, mas eu ainda não li. O motivo direto é porque ainda não tive tempo (leia-se dinheiro); e o indireto é porque quero saborear ainda mais um pouquinho essa série. Confesso que me surpreendi muito, muito mesmo, com esses livros. Não que duvidasse da capacidade do ´Tio Stevie´ de criar boas histórias, mas porque há uma filosofia bem composta e cadência de idéias impressionantes nesse novo universo. Ao mesmo tempo que é atual com suas incontáveis referências ao "nosso mundo", a ´Torre Negra´ retoma o sabor das narrativas fantásticas clássicas, do mundo do extraordinário. E essa mistura do contemporâneo com o fantástico é que dá o toque especial.
A ´Torre Negra´ é o eixo do tempo-espaço, mas também é o eixo central da obra de King; e porque não dizer eixo de todas as narrativas de fantasia e do pensamento do mundo contemporâneo? Oras, como diria Jake Chambers, há outros mundos além desse.
E essa série de King, como um desses mundos, vale a pena ser lida.
A história é ambientada numa espécie de mundo pós-apocaliptico, mas com claras influências medievais. Influência, aliás, é o que não falta nessa série e King não as nega. Na contra-capa da edição brasileira e no prólogo dos volumes da série podemos ler com todas as letras "baseado no poema ´Childe Roland à Torre Negra chegou´ e no universo de J.R.R.Tolkien". E não pára por aí. Temos referências à lenda de Rei Arthur, músicas dos Beatles tocando em pubs em bares duvidosos no meio do deserto, bandidos malvadões com máscaras de vilões da Marvel e referências mil à cultura contemporânea geral. Só mesmo alguém como King para ter a coragem de admitir que não bebeu da fonte, nadou na fonte, e com a água batizou seu novo mundo de Mundo Médio. Sugestivo, não?
Ah, mais que isso são as ligações que King faz com suas outras obras e com sua própria vida. A série A Torre Negra é uma miscelânia de lugares, personagens, fatos e ironias deliciosamente agudas; daquelas que fazem o leitor de outros livros do autor rirem de orelha a orelha. A série é realmente a grande obra de King, não por ter levado décadas para ser escrita, mas porque contém em seu universo todos os outros do autor.
O primeiro volume, O Pistoleiro, nos apresenta o herói (herói?) da história, Roland de Gilead, um personagem que poderia ter saído de um filme faroeste clássico. Roland está na cola do Homem de Preto (ah, isso não é um spoiler, é a primeira linha do livro rs), uma busca menor dentro da grande ambição de sua vida que é chegar à Torre Negra. O mundo de Roland está deteriorado a tal ponto que tempo e espaço já não são mais os mesmos. A salvação pode ser a Torre. O livro é bem imaturo e a escrita é estranha, algumas idéias não são bem conectadas; mas a história já começa a envolver. Vale a pena ter força de vontade e seguir até o primoroso fim. Não vão se arrepender.
Em A Escolha dos Três, o segundo volume da saga, Roland - um andarilho solitário por natureza - descobre que precisa trabalhar em grupo. E é aí que conhecemos Eddie Dean - um viciado em heroína da Nova York dos anos 80, Odetta/Detta/Susannah - uma esquizofrênica negra sem as duas pernas da Nova York dos anos 60 e Jake Chambers - um garoto de 12 anos (que já havia sido companheiro de Roland em outro mundo...) da Nova York dos anos 70. Juntos eles formam Ka-tet (um de muitos) e descobrem como suas vidas estão intimamente entrelaçadas com o caminho da Torre.
Terras Desvastadas, o terceiro volume, é simplesmente maravilhoso. Aí sim temos King em sua melhor forma e já bem mais maduro. Diferente dos outros volumes anteriores, esse é devorável e repleto de ação. Com sacadas bem inteligentes e personagens maravilhosamente descritos. Os conflitos são sensíveis e os vilões reais começam a dar as caras.
O quarto capítulo, Mago e Vidro, narra o passado do pistoleiro Roland de Gilead. Esse livro é arrepiante. A série volta à adolescência de Roland, à sua primeira missão numa cidadezinha chamada Mejis e à uma moça chamada Susan Delgado. Apesar de delongar demais em alguns detalhes e chegar a entediar, quando o circo pega fogo na história pega fogo mesmo. Os conflitos já não são mais internos; quando chegamos ao final do livro, é difícil saber quem está certo e quem está errado. Além disso, é um divisor de águas na série.
Lobos de Calla é cheio de respostas (mas de lambugem, vêm mais um milhão de perguntas). O ka-tet vai para a estranha cidade de Calla Bryn Sturgis e mais uma vez os conflitos internos se soprepõem aos externos. A trilha para a Torre começa a ser mapeada, mas como tudo mais em King, sempre falta alguém para ler o mapa. A aparição sensacional de um personagem de outro livro de King dá um sabor especial a essa história.
O sexto volume é intulado a Canção de Susannah. O desenvolvimento do volume inteiro dá-se no breve período de um dia. Surpreendente, chocante, eletrizante, aterrorizante, angustiante e mais um bocado de outros -ante por aí, o livro é surpresa atrás de surpresa do início ao fim e está repleto das sacadas das mais geniais. Vale a pena ler a série inteira só pra chegar nesse ponto da história.
A Torre Negra é o volume que encerra a série, mas eu ainda não li. O motivo direto é porque ainda não tive tempo (leia-se dinheiro); e o indireto é porque quero saborear ainda mais um pouquinho essa série. Confesso que me surpreendi muito, muito mesmo, com esses livros. Não que duvidasse da capacidade do ´Tio Stevie´ de criar boas histórias, mas porque há uma filosofia bem composta e cadência de idéias impressionantes nesse novo universo. Ao mesmo tempo que é atual com suas incontáveis referências ao "nosso mundo", a ´Torre Negra´ retoma o sabor das narrativas fantásticas clássicas, do mundo do extraordinário. E essa mistura do contemporâneo com o fantástico é que dá o toque especial.
A ´Torre Negra´ é o eixo do tempo-espaço, mas também é o eixo central da obra de King; e porque não dizer eixo de todas as narrativas de fantasia e do pensamento do mundo contemporâneo? Oras, como diria Jake Chambers, há outros mundos além desse.
E essa série de King, como um desses mundos, vale a pena ser lida.
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
Dói
Esse texto tem todo o crédito da Amanda Pavani, minha amiga, dona do blog Since I´m here que está com problemas para atualização. Por isso, ela pediu que eu cedesse esse espacinho para ela aqui. Espero que gostem do texto, porque eu gostei.
"Acabei de fazer uma coisa muito bonita.
Porém, ao mesmo tempo, acabo de descobrir que caridade dói, e dói uma dor física que sufoca.
Estava eu indo à FUMP (o prédio onde é gerida uma fundação de assistência estudantil, ou seja, um lugar que ajuda alunos pobres), quando o ônibus virou uma esquina e eu não pude deixar de olhar pra um mendigo, sentado sob o sol forte, com roupas escuras, todas rasgadas. O cabelo dele estava despenteado, parecia meio branco, meio cheio de poeira, e ele empurrava-o pra trás de quando em quando. Pensei que ele estava no começo da Augusto de Lima. Observei enquanto o sinal continuava fechado o modo como as pessoas passavam direto por ele e senti pena. Lembrei-me então de um desejo que eu guardava desde antes de me mudar, e prometi-me mentalmente que, depois de resolver meus assuntos na FUMP, compraria uma daquelas esfihas de carne do Habib's, que são baratinhas, e levaria pra ele. Aquilo ia requerer uma caminhada enorme, mas eu decidi que não ia doer sair um pouco do meu caminho pra dar algo praquele homem comer.
Só que o 5102, pra quem não conhece, é um ônibus que dá voltas e voltas na Praça Raul Soares, e quando olhei para o começo da Augusto de Lima antes mesmo de descer do ônibus, vi que não era lá que ele estava. Desanimei, pensando que ele poderia estar em qualquer esquina no entorno da praça, e ficar rodando lá poderia ser perigoso. Daí surgiu a segunda promessa mental: se eu encontrasse outro mendigo no caminho, faria a caridade, mas sabia que era uma promessa vazia, porque o caminho do ponto de ônibus até a FUMP é curto e não costuma ter mendigos.
Resolvi meus problemas, fiz meu lindo orçamento de gramática e dicionário de inglês, e fui saindo do prédio. Assim que pus os pés do lado de fora, ali estavam elas. Três mulheres, parecendo tão miseráveis quando o mendigo da idéia original, estavam sentadas ao lado do prédio, com carinhas sonhadoras, uma delas só com os dentes de cima da frente, espaçados e protuberantes; outra parecia mais velha, com os cabelos cinzentos iguaizinhos aos do homem, e uma menina encostada nela. As três estavam pedindo esmolas com duas caixas de sapatos. Eu hesitei em passar no meio delas, dei a volta, fiquei parada na calçada, olhando pra elas, sem ser percebida.
Pensei: são três! Eu não tenho tanto dinheiro assim pra comprar esfiha pras três, e não posso dar de comer só pra uma. Vou embora...
Dei um passo à frente, parei de novo, e entrei na fila do Habib's que fica ao lado da FUMP. Comprei três esfihas de carne pra viagem e saí do prédio.
Primeiro eu me aproximei daquela com poucos dentes. Nem lembro direito as palavras que eu usei. Algo sobre perguntar se ela estava com fome e se gostava de carne. Entreguei uma esfiha, ela me olhou toda feliz, disse: "Deus te abençoe", e eu respondi "Amém", mesmo sem ser mais católica, que é o que eu sempre faço, pra não magoar os sentimentos religiosos das pessoas. Só que quando eu me virei pras outras duas, que já estavam alegrinhas por antecipação, eu não aguentei e comecei a chorar. Balbuciei de leve que tinha comprado uma esfiha pra cada uma. Entreguei as esfihas pra elas, depois os guardanapos. Voltei e entreguei guardanapos de papel pra primeira mendiga também, porque eu tinha esquecido.
Respondi aos agradecimentos delas de novo e me joguei na faixa, onde o sinal estava aberto pros pedestres. Estava chorando que nem criança, não consegui aguentar. Estava também com essa dor de que eu falei no começo, que pareceu fazer o meu coração inchar, ficar imenso, e me apertar por dentro; não tinha espaço pra mais nada, só coração.
Fiquei triste, porque aquilo era tudo que eu podia fazer por elas. Fiquei puta, porque todo mundo passa reto, todos os dias. Fiquei com vergonha, porque era a primeira vez que fazia isso, quando isso deveria ser um ato rotineiro, não só meu como de todas as pessoas. Fiquei me sentindo uma espécie de Cinderella Man, mas isso não me deixou tão feliz comigo mesma quanto achei que me deixaria, porque, de certa forma, eu estava sentindo dor. Era tão forte que eu fiquei assustada, enquanto subia a Espírito Santo. Achei que não ia conseguir chegar ao ponto de ônibus, passei direto por um hotel rico, com engravatados conversando educadamente à porta, passei por dois moleques com camisetas de Medicina da UFMG. E aquela dor não passava. Eu subi no ônibus, me sentei e continuei chorando, com todos esses pensamentos piegas que a caridade gratuita envolve, como "por que as pessoas deixam outras sofrerem desse jeito?" ou "por que ninguém faz nada?".
Não podia deixar de lembrar, também, do Machado de Assis, que é sempre essa droga dessa nuvem negra em cima da cabeça da gente, falando que nunca se faz nada gratuitamente. Se eu dei um pouquinho de comer pras mendigas, queria reconhecimento, seja por quem estava passando pela calçada, seja por quem vai ler essa postagem, ou qualquer pessoa que consiga ouvir essa história de mim. Mas tá doendo tanto, que eu queria abraçar a minha mãe. Nada que eu faça agora faz essa sensação passar, apesar de eu ter certeza que fiz não só uma coisa certa, como uma coisa admirável, mesmo que o meu subconsciente tivesse me jogado dentro do Habib's só pra aumentar minha auto estima, ou a estima de vocês sobre mim. Muita gente condena esses atos aleatórios de alimentação dos pobres, porque é apenas um modo de ilusão. Bom, não seria, se vossas senhorias fizessem o mesmo, de vez em quanto. As três esfihas me custaram 1,70. Não dói não. O que dói é o que vem depois.
Outra vontade que me tomou conta foi de gritar com alguém, de cuspir na cara dos revolucionários que agora enchem o campus da UFMG. Me deu vontade de quebrar alguma coisa cara de alguém importante. Deu vontade de me esconder."
Amanda Pavani.
"Acabei de fazer uma coisa muito bonita.
Porém, ao mesmo tempo, acabo de descobrir que caridade dói, e dói uma dor física que sufoca.
Estava eu indo à FUMP (o prédio onde é gerida uma fundação de assistência estudantil, ou seja, um lugar que ajuda alunos pobres), quando o ônibus virou uma esquina e eu não pude deixar de olhar pra um mendigo, sentado sob o sol forte, com roupas escuras, todas rasgadas. O cabelo dele estava despenteado, parecia meio branco, meio cheio de poeira, e ele empurrava-o pra trás de quando em quando. Pensei que ele estava no começo da Augusto de Lima. Observei enquanto o sinal continuava fechado o modo como as pessoas passavam direto por ele e senti pena. Lembrei-me então de um desejo que eu guardava desde antes de me mudar, e prometi-me mentalmente que, depois de resolver meus assuntos na FUMP, compraria uma daquelas esfihas de carne do Habib's, que são baratinhas, e levaria pra ele. Aquilo ia requerer uma caminhada enorme, mas eu decidi que não ia doer sair um pouco do meu caminho pra dar algo praquele homem comer.
Só que o 5102, pra quem não conhece, é um ônibus que dá voltas e voltas na Praça Raul Soares, e quando olhei para o começo da Augusto de Lima antes mesmo de descer do ônibus, vi que não era lá que ele estava. Desanimei, pensando que ele poderia estar em qualquer esquina no entorno da praça, e ficar rodando lá poderia ser perigoso. Daí surgiu a segunda promessa mental: se eu encontrasse outro mendigo no caminho, faria a caridade, mas sabia que era uma promessa vazia, porque o caminho do ponto de ônibus até a FUMP é curto e não costuma ter mendigos.
Resolvi meus problemas, fiz meu lindo orçamento de gramática e dicionário de inglês, e fui saindo do prédio. Assim que pus os pés do lado de fora, ali estavam elas. Três mulheres, parecendo tão miseráveis quando o mendigo da idéia original, estavam sentadas ao lado do prédio, com carinhas sonhadoras, uma delas só com os dentes de cima da frente, espaçados e protuberantes; outra parecia mais velha, com os cabelos cinzentos iguaizinhos aos do homem, e uma menina encostada nela. As três estavam pedindo esmolas com duas caixas de sapatos. Eu hesitei em passar no meio delas, dei a volta, fiquei parada na calçada, olhando pra elas, sem ser percebida.
Pensei: são três! Eu não tenho tanto dinheiro assim pra comprar esfiha pras três, e não posso dar de comer só pra uma. Vou embora...
Dei um passo à frente, parei de novo, e entrei na fila do Habib's que fica ao lado da FUMP. Comprei três esfihas de carne pra viagem e saí do prédio.
Primeiro eu me aproximei daquela com poucos dentes. Nem lembro direito as palavras que eu usei. Algo sobre perguntar se ela estava com fome e se gostava de carne. Entreguei uma esfiha, ela me olhou toda feliz, disse: "Deus te abençoe", e eu respondi "Amém", mesmo sem ser mais católica, que é o que eu sempre faço, pra não magoar os sentimentos religiosos das pessoas. Só que quando eu me virei pras outras duas, que já estavam alegrinhas por antecipação, eu não aguentei e comecei a chorar. Balbuciei de leve que tinha comprado uma esfiha pra cada uma. Entreguei as esfihas pra elas, depois os guardanapos. Voltei e entreguei guardanapos de papel pra primeira mendiga também, porque eu tinha esquecido.
Respondi aos agradecimentos delas de novo e me joguei na faixa, onde o sinal estava aberto pros pedestres. Estava chorando que nem criança, não consegui aguentar. Estava também com essa dor de que eu falei no começo, que pareceu fazer o meu coração inchar, ficar imenso, e me apertar por dentro; não tinha espaço pra mais nada, só coração.
Fiquei triste, porque aquilo era tudo que eu podia fazer por elas. Fiquei puta, porque todo mundo passa reto, todos os dias. Fiquei com vergonha, porque era a primeira vez que fazia isso, quando isso deveria ser um ato rotineiro, não só meu como de todas as pessoas. Fiquei me sentindo uma espécie de Cinderella Man, mas isso não me deixou tão feliz comigo mesma quanto achei que me deixaria, porque, de certa forma, eu estava sentindo dor. Era tão forte que eu fiquei assustada, enquanto subia a Espírito Santo. Achei que não ia conseguir chegar ao ponto de ônibus, passei direto por um hotel rico, com engravatados conversando educadamente à porta, passei por dois moleques com camisetas de Medicina da UFMG. E aquela dor não passava. Eu subi no ônibus, me sentei e continuei chorando, com todos esses pensamentos piegas que a caridade gratuita envolve, como "por que as pessoas deixam outras sofrerem desse jeito?" ou "por que ninguém faz nada?".
Não podia deixar de lembrar, também, do Machado de Assis, que é sempre essa droga dessa nuvem negra em cima da cabeça da gente, falando que nunca se faz nada gratuitamente. Se eu dei um pouquinho de comer pras mendigas, queria reconhecimento, seja por quem estava passando pela calçada, seja por quem vai ler essa postagem, ou qualquer pessoa que consiga ouvir essa história de mim. Mas tá doendo tanto, que eu queria abraçar a minha mãe. Nada que eu faça agora faz essa sensação passar, apesar de eu ter certeza que fiz não só uma coisa certa, como uma coisa admirável, mesmo que o meu subconsciente tivesse me jogado dentro do Habib's só pra aumentar minha auto estima, ou a estima de vocês sobre mim. Muita gente condena esses atos aleatórios de alimentação dos pobres, porque é apenas um modo de ilusão. Bom, não seria, se vossas senhorias fizessem o mesmo, de vez em quanto. As três esfihas me custaram 1,70. Não dói não. O que dói é o que vem depois.
Outra vontade que me tomou conta foi de gritar com alguém, de cuspir na cara dos revolucionários que agora enchem o campus da UFMG. Me deu vontade de quebrar alguma coisa cara de alguém importante. Deu vontade de me esconder."
Amanda Pavani.
Ultrabacana
É difícil eu ir em algum show. Primeiro porque normalmente as bandas que eu gosto não fazem apresentações na minha cidade e segundo porque quase nunca eu tenho dinheiro e/ou idade para ir nesses shows (se bem que na categoria idade eu me garanto a 11 dias! rs). Mas algum santo baixou, um milagre aconteceu e eu fui num show! É, uma amiga minha, a Lu, chegou e chamou pra eu ir no show do Cachorro Grande. Ela sabe que eu gosto da banda. E não é que eu logo tomei a iniciativa de comprar ingressos e tudo? Não é que eu empolguei com a idéia e topei ir mesmo com três dias de antecedência? *inserir icon de incadreditável aqui* É nessas horas que eu acredito que forças superiores de fato sussurram coisas nos nossos ouvidos...
18 de agosto. Sábado à noite. Music Hall. Festa Ultrabacana; shows com Pato Fu e Cachorro Grande. Na hora que eu entrei no lugar e ouvi a mulherzinha dizer "tenha uma festa ultrabacana" e me dar um pirulito juro que senti vontade de ir embora. Mas a vontade passou assim que cheguei no lugar da festa. A Lu concordou comigo: alguma coisa ali deixava a gente confortável. As pessoas não pareciam tão discrepantes quanto na maioria das festas. Claro, um bando de nerds! De diferentes categorias, é verdade, mas ainda assim estranhamente não-discrepantes de nós. Dá pra acreditar?
Ficamos bem perto do palco e quando o show do Pato Fu começou todas as nossas reclamações de que devíamos ter trazido colchonetes para dormir se mostraram infundadas: o show foi super animado. E eu descobri que sei mais músicas do Pato Fu do que pensava. As dancinhas toscas da Fernanda Takai foram ótimas (tá vendo? Eu ainda tenho futuro!). Me surpreendi e paguei língua mesmo. Excelente.
Pro show do Cachorro Grande as pessoas ficaram mais agitadas, brigando pra ficar mais perto do palco. E devo dizer que a maioria era composta de jovens de boina. rs Falar que foi uma apresentação empolgada é besteira. Foi animal! E terminou com um Rodolfo Krieger bêbado gritando que BH era foda e pulando em cima da galera. Como descrever uma coisa dessas?
(E como me perdoar por não ter levado uma câmera fotográfica?????????)
Parece estranho, né? Reunir duas bandas que a primeira vista são tão diferentes. E é mais estranho ainda perceber que você gostou dos dois estilos, e se divertiu igualmente com dois jeitos tão diferentes! Quer dizer, o show do Pato Fu é leve, bonitinho, empolgado, te faz balançar de levinho e dar pulinhos. Já o show do Cachorro Grande dá tanta energia que parece que você levou uma pancada na cabeça e ao mesmo tempo que tá destruído não consegue parar de gritar e dar verdadeiros saltos entusiastas... Fernanda cantando com suas dancinhas e Beto Bruno dando berros rodando o pedestal do microfone...
Como se junta gente assim no mesmo espaço? O que faz com que as pessoas gostem dos dois? Qual é a coisa que faz com esses dois sons sejam tão verdadeiros? Qual elemento faz com que nos identifiquemos com as duas bandas?
Cada um fala do que sabe.
Cada um faz a sua própria filosofia.
No final das contas, as diferenças não importam mais. A mensagem chega até nós da forma como tem que chegar. Falando da vida como um grito histérico ou como uma estrada, não importa. É por isso que Pato Fu e Cachorro Grande conseguem pirar o mesmo público.
Cada um fala do que sabe. Da sua própria verdade.
...
Eu escrevo.
Ultrabacana mesmo!
18 de agosto. Sábado à noite. Music Hall. Festa Ultrabacana; shows com Pato Fu e Cachorro Grande. Na hora que eu entrei no lugar e ouvi a mulherzinha dizer "tenha uma festa ultrabacana" e me dar um pirulito juro que senti vontade de ir embora. Mas a vontade passou assim que cheguei no lugar da festa. A Lu concordou comigo: alguma coisa ali deixava a gente confortável. As pessoas não pareciam tão discrepantes quanto na maioria das festas. Claro, um bando de nerds! De diferentes categorias, é verdade, mas ainda assim estranhamente não-discrepantes de nós. Dá pra acreditar?
Ficamos bem perto do palco e quando o show do Pato Fu começou todas as nossas reclamações de que devíamos ter trazido colchonetes para dormir se mostraram infundadas: o show foi super animado. E eu descobri que sei mais músicas do Pato Fu do que pensava. As dancinhas toscas da Fernanda Takai foram ótimas (tá vendo? Eu ainda tenho futuro!). Me surpreendi e paguei língua mesmo. Excelente.
Pro show do Cachorro Grande as pessoas ficaram mais agitadas, brigando pra ficar mais perto do palco. E devo dizer que a maioria era composta de jovens de boina. rs Falar que foi uma apresentação empolgada é besteira. Foi animal! E terminou com um Rodolfo Krieger bêbado gritando que BH era foda e pulando em cima da galera. Como descrever uma coisa dessas?
(E como me perdoar por não ter levado uma câmera fotográfica?????????)
Parece estranho, né? Reunir duas bandas que a primeira vista são tão diferentes. E é mais estranho ainda perceber que você gostou dos dois estilos, e se divertiu igualmente com dois jeitos tão diferentes! Quer dizer, o show do Pato Fu é leve, bonitinho, empolgado, te faz balançar de levinho e dar pulinhos. Já o show do Cachorro Grande dá tanta energia que parece que você levou uma pancada na cabeça e ao mesmo tempo que tá destruído não consegue parar de gritar e dar verdadeiros saltos entusiastas... Fernanda cantando com suas dancinhas e Beto Bruno dando berros rodando o pedestal do microfone...
Como se junta gente assim no mesmo espaço? O que faz com que as pessoas gostem dos dois? Qual é a coisa que faz com esses dois sons sejam tão verdadeiros? Qual elemento faz com que nos identifiquemos com as duas bandas?
Woo – Pato Fu
Faça algo mágico e faça agora
Ahaaa
Faça isso rápido e sem demora
Ahaaa
Siga a sua lógica indo embora
Ahaaa
Faça algo cínico e dê o fora
Ahaaa
Quando algo sai do seu controle
o mundo volta a respirar
A confusão pode ser doce
A perfeição pode matar....ah.....
Sinta seu espírito ir à forra
Ahaaa
Tranque esse cubículo por fora
Ahaaa
Veja como é ótimo, não tenha medo
Ahaaa
Conte o seu angélico segredo
Ahaaa
Quando algo sai do seu controle
o mundo volta a respirar
A confusão pode ser doce
A perfeição pode matar...ah...
Woo!
Woo!Velha amiga
- Cachorro GrandeVocê tem que olhar a estrada
Com uma cara cansada
Como uma velha amiga
Que você já não agüenta mais
Estou aqui de passagem
A vida é uma mala pronta pra viagem
Minha cabeça é minha bagagem
E a estrada é uma velha amiga
Com quem você pode contar, velha amiga?
Cada um fala do que sabe.
Cada um faz a sua própria filosofia.
No final das contas, as diferenças não importam mais. A mensagem chega até nós da forma como tem que chegar. Falando da vida como um grito histérico ou como uma estrada, não importa. É por isso que Pato Fu e Cachorro Grande conseguem pirar o mesmo público.
Cada um fala do que sabe. Da sua própria verdade.
...
Eu escrevo.
Ultrabacana mesmo!
domingo, 12 de agosto de 2007
Avô deserda Paris Hilton
Quando eu li essa notícia, três reações diferentes desencadearam ao mesmo tempo:
1 - Bem feito, aquela vaca! Se ferrou.
2 - Quem se importa?
3 - Golpe da mídia, mas que lixo!
É engraçado que quando o assunto se volta para a vida das celebridades, todo mundo enche o peito para dizer: "Mas é uma mesquinharia mesmo. Como se a gente estivesse interessado na vida deles. E a televisão empurra essa porcaria pra gente, como se fosse importante. Deviam investir em programas educativos que realmente ensinam as pessoas. Notícia de verdade". A maioria das pessoas presentes na conversa faz sinal de afirmação, algumas intervenções de concordância e no fim todos dizem o quanto o povão se deixa seduzir pelas pseudo-notícias. O mundo é lindo, as pessoas têm senso crítico, todos vamos viver felizes como irmãos pelo resto da eternidade... e bla bla bla. Acontece que em toda sala de espera de consultório médico ou dentário sempre tem uma revista ´Caras´. E todo mundo lê.
É inevitável. Você está lá sentado - numa cadeira que nem sempre é confortável - observando uma secretária - que nem sempre é agradável - antotar alguma coisa ou tomar o cadastro de algum outro paciente. A consulta como sempre está atrasada, já faz meia hora que você está olhando para a parede e de repente, num banquinho ao lado do lugar onde você está sentado está ´Malu Mader revela sua intimidade´. Quem resiste, né? O mundo conspirou para você pegar a revista e ler não só sobre a intimidade de Malu Mader, mas também sobre o fim do namoro da Débora Secco ("mocinha desfrutável!"), sobre a casa nova que o Fábio Júnior ("como se ele não tivesse muitas!") comprou e sobre o escândalo que foi a Lindsay Lohan aparecer sem calcinha numa festa ("aquela vadia!"). Nessas horas você esquece que normalmente é contra essas pseudo-notícias. Se esquece de que diz para todos os seus amigos que bom mesmo é ler ´Superinteressante´ ou, quando quer impressionar mesmo, ´Carta Capital´. Porque nessas horas o que realmente importa é que a Xuxa emagreceu 10 quilos! ("Magrela!")
A humanidade sofre do que eu chamo de fetiche do holofote. Vontade de estar lá sob as luzes da ribalta, de conhecer o mundo por trás da cortina de seda que é o show bizz. Chegar perto daqueles que estão lá em cima, conhecer seus segredos, se aproximar deles. Sentir, mesmo que seja falsamente, que estão perto deles... Porque em cima do palco o mundo é melhor. Em cima do palco as pessoas são mais bonitas, são mais bem vestidas. Em cima do palco os casamentos são perfeitos, as chances de criar uma ruga são mínimas e os rios de dinheiro... ah, os rios de dinheiro! Todo mundo quer ser famoso. E quando não dá, ler uma nota ou outra sobre o vestido novo da Sarah Jessica Parker ajuda a matar um pouquinho do desejo...
O problema é que humanos são bichos estranhos. São complexos, são paradoxais, são loucos, são esquisitos e principalmente, têm uma necessidade compulsiva de criar problemas. O problema do fetiche do holofote é: vamos fingir que somos cults, não ligamos para essa porcaria. E no fundo uma vontade louca de saber se a Angelina Jolie vive feliz com o Brad Pitt lateja no peito. Negação. Qual a solução para dar vazão a essa frustração? (quantos -ãos... rs) JOGA PEDRA NA GENI!
Ah, que alívio descobrir que o Tom Cruise tem TOC e que o Leonardo diCaprio terminou com a Gisele. Só não foi melhor que ver a Britney ser internada três vezes seguidas numa clínica de reabilitação e a Paris Hilton ser presa por 23 dias. Já que não podemos ser como eles, que possamos ver que eles são como a gente, não? Pior que a gente. É o tipo de pensamento que conforta as pessoas. Ao mesmo tempo que veneram celebridades, têm um prazer sádico em vê-las se darem mal. Eu disse que humanos eram estranhos.
Ninguém está livre da tentação de ler a manchete da ´Ti-ti-ti´ ou uma notinha da ´Querida´. Nem eu, nem você, leitor - que aposto que está agora mesmo dizendo que não lê essas porcarias sem conteúdo! -. Negação.
Será que tem mesmo algo de tão errado, de tão criminoso em ler "a última" na página principal do seu provedor? Será que vai pro inferno quem sabe qual o atual namorado da Jennifer Aniston? Será que é atestar seu baixo nível intelectual confessar em frente aos amigos que você achou horroroso o vestido da Helena Boham Carter na última Premiere do filme dela? (que é que era aquele echarpe, pelo hipogrifo sem dente!) Huuuuuuuuuum, acho que a resposta é não.
Mas existe uma coisa que realmente define a sua posição. Quando o dentista chama o seu nome você pára de ler. E aí, na volta pra casa, você lembra de outras coisas; daquele filme bacana que vocêu viu, ou da situação política do país; ou de uma piada realmente engraçada. Agora a notícia da Paris Hilton deserdada é um limbo na sua mente, e não faz diferença na sua vida... Afinal de contas, é só fruto de um complexo maluco da humanidade, não? É, não é tão importante assim..
Se três reações são desencadeadas ao mesmo tempo na sua mente com uma notícia desse tipo, não se preocupe, não há nada de errado com o seu cérebro. Você não será expulso do grupo dos nerds e seu livro favorito ainda pode ser O Senhor dos Anéis...
1 - Bem feito, aquela vaca! Se ferrou.
2 - Quem se importa?
3 - Golpe da mídia, mas que lixo!
É engraçado que quando o assunto se volta para a vida das celebridades, todo mundo enche o peito para dizer: "Mas é uma mesquinharia mesmo. Como se a gente estivesse interessado na vida deles. E a televisão empurra essa porcaria pra gente, como se fosse importante. Deviam investir em programas educativos que realmente ensinam as pessoas. Notícia de verdade". A maioria das pessoas presentes na conversa faz sinal de afirmação, algumas intervenções de concordância e no fim todos dizem o quanto o povão se deixa seduzir pelas pseudo-notícias. O mundo é lindo, as pessoas têm senso crítico, todos vamos viver felizes como irmãos pelo resto da eternidade... e bla bla bla. Acontece que em toda sala de espera de consultório médico ou dentário sempre tem uma revista ´Caras´. E todo mundo lê.
É inevitável. Você está lá sentado - numa cadeira que nem sempre é confortável - observando uma secretária - que nem sempre é agradável - antotar alguma coisa ou tomar o cadastro de algum outro paciente. A consulta como sempre está atrasada, já faz meia hora que você está olhando para a parede e de repente, num banquinho ao lado do lugar onde você está sentado está ´Malu Mader revela sua intimidade´. Quem resiste, né? O mundo conspirou para você pegar a revista e ler não só sobre a intimidade de Malu Mader, mas também sobre o fim do namoro da Débora Secco ("mocinha desfrutável!"), sobre a casa nova que o Fábio Júnior ("como se ele não tivesse muitas!") comprou e sobre o escândalo que foi a Lindsay Lohan aparecer sem calcinha numa festa ("aquela vadia!"). Nessas horas você esquece que normalmente é contra essas pseudo-notícias. Se esquece de que diz para todos os seus amigos que bom mesmo é ler ´Superinteressante´ ou, quando quer impressionar mesmo, ´Carta Capital´. Porque nessas horas o que realmente importa é que a Xuxa emagreceu 10 quilos! ("Magrela!")
A humanidade sofre do que eu chamo de fetiche do holofote. Vontade de estar lá sob as luzes da ribalta, de conhecer o mundo por trás da cortina de seda que é o show bizz. Chegar perto daqueles que estão lá em cima, conhecer seus segredos, se aproximar deles. Sentir, mesmo que seja falsamente, que estão perto deles... Porque em cima do palco o mundo é melhor. Em cima do palco as pessoas são mais bonitas, são mais bem vestidas. Em cima do palco os casamentos são perfeitos, as chances de criar uma ruga são mínimas e os rios de dinheiro... ah, os rios de dinheiro! Todo mundo quer ser famoso. E quando não dá, ler uma nota ou outra sobre o vestido novo da Sarah Jessica Parker ajuda a matar um pouquinho do desejo...
O problema é que humanos são bichos estranhos. São complexos, são paradoxais, são loucos, são esquisitos e principalmente, têm uma necessidade compulsiva de criar problemas. O problema do fetiche do holofote é: vamos fingir que somos cults, não ligamos para essa porcaria. E no fundo uma vontade louca de saber se a Angelina Jolie vive feliz com o Brad Pitt lateja no peito. Negação. Qual a solução para dar vazão a essa frustração? (quantos -ãos... rs) JOGA PEDRA NA GENI!
Ah, que alívio descobrir que o Tom Cruise tem TOC e que o Leonardo diCaprio terminou com a Gisele. Só não foi melhor que ver a Britney ser internada três vezes seguidas numa clínica de reabilitação e a Paris Hilton ser presa por 23 dias. Já que não podemos ser como eles, que possamos ver que eles são como a gente, não? Pior que a gente. É o tipo de pensamento que conforta as pessoas. Ao mesmo tempo que veneram celebridades, têm um prazer sádico em vê-las se darem mal. Eu disse que humanos eram estranhos.
Ninguém está livre da tentação de ler a manchete da ´Ti-ti-ti´ ou uma notinha da ´Querida´. Nem eu, nem você, leitor - que aposto que está agora mesmo dizendo que não lê essas porcarias sem conteúdo! -. Negação.
Será que tem mesmo algo de tão errado, de tão criminoso em ler "a última" na página principal do seu provedor? Será que vai pro inferno quem sabe qual o atual namorado da Jennifer Aniston? Será que é atestar seu baixo nível intelectual confessar em frente aos amigos que você achou horroroso o vestido da Helena Boham Carter na última Premiere do filme dela? (que é que era aquele echarpe, pelo hipogrifo sem dente!) Huuuuuuuuuum, acho que a resposta é não.
Mas existe uma coisa que realmente define a sua posição. Quando o dentista chama o seu nome você pára de ler. E aí, na volta pra casa, você lembra de outras coisas; daquele filme bacana que vocêu viu, ou da situação política do país; ou de uma piada realmente engraçada. Agora a notícia da Paris Hilton deserdada é um limbo na sua mente, e não faz diferença na sua vida... Afinal de contas, é só fruto de um complexo maluco da humanidade, não? É, não é tão importante assim..
Se três reações são desencadeadas ao mesmo tempo na sua mente com uma notícia desse tipo, não se preocupe, não há nada de errado com o seu cérebro. Você não será expulso do grupo dos nerds e seu livro favorito ainda pode ser O Senhor dos Anéis...
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
17
Bem, é hora de dar adeus aos 17. Nossa, como eu gostei desse número! Apesar de todas as brincadeiras e piadinhas por ser a única da turma que ainda era uma underage, apesar de me sentir uma pirralha no meio de um bando de gente adulta discutindo literatura, eu posso dizer, com toda segurança do mundo, que os 17 valeram a pena. Valeram mesmo.
Com 17 anos eu estudei como nunca tinha feito na vida; com 17 anos eu descobri que os meus amigos são os melhores do mundo; com 17 eu vi que minha família me apoia em tudo (e tem uma paciência que só Deus sabe como resiste!); com 17 eu tive um namorado extremamente babaca (todos precisam ter um na vida); com 17 anos eu descobri que é bacana ensinar os outros; com 17 eu dei muita risada; com 17 eu chorei um bocado e gritei com pessoas com que não devia ter gritado. Com 17 anos eu já odiei andar de busão; com 17 anos eu entrei numa universidade federal renomada (três vivas para a UFMG!); com 17 anos eu descobri que tenho uma paixão maior por Teoria da Literatura do que por Linguística!; com 17 anos eu vi que muita gente joga a vida fora, equanto pouca gente vale a pena; com 17 anos, e eu ainda acho que a melhor banda do mundo é o Rush (apesar de escutar outras e achar que elas são boas); com 17 anos e o melhor presente que posso ganhar é um livro. Com 17 eu saquei que às vezes as pessoas mudam, mas isso não é necessariamente ruim; com 17 eu descobri que amizade on-line não é possível, mas duradoura (Resort 4ever); com 17 eu descobri que ainda sou capaz de escrever algo original (mas ainda acho que as fanfictions foram uma fase maravilhosa que talvez nunca passe de todo! R/H writer sempre!); com 17 anos eu li o final de Harry Potter (e chorei, descabelei, sorri, torci) e considero que essa é a melhor série já escrita! Jo é minha ídola!; com 17 anos eu vi que os teóricos literários podem ser bem idiotas e que às vezes, é melhor gostar de Harry Potter mesmo e ser feliz. Com 17 anos eu saquei que, bem, eu sou eu mesma. E que sou feliz assim. Os 18 não vieram para inaugurar uma nova fase e sim para confirmar tudo o que eu construí e fui nesses últimos 17 anos.
Eu vou sentir falta dos 17... Se o Stephen King tem o 19, eu tenho o 17. Então é com muita nostalgia que eu encerro esse post... É com saudade que amanhã caminho para os 18, lembrando da festa de aniversário surpresa... do cursinho... do primeiro dia na faculdade... do trote que minha família e amigos me deu... de todas as idas ao cinema e ao boliche com os amigos... dos rodízios de pizza... de Harry Potter... do Resort... das conversas tresloucadas no msn... das músicas ouvidas enquanto vagava na internet... das minhas fanfics... das fanfics dos outros!... das conversas com a minha irmã durante a noite e das teorias desenvolvidas do nada... do colo da minha mãe... das trocas de idéia com o meu pai... Não é realmente um adeus, eu sei. Eu não vou deixar essas coisas morrerem porque elas estão eternizadas para sempre na minha memória!
Eu agradeço a todos que estiveram comigo nesses 17 anos de vida! Sem vocês, eu não seria ninguém. Amo todos!
O espírito sem limites é o maior tesouro do homem.
Com 17 anos eu estudei como nunca tinha feito na vida; com 17 anos eu descobri que os meus amigos são os melhores do mundo; com 17 eu vi que minha família me apoia em tudo (e tem uma paciência que só Deus sabe como resiste!); com 17 eu tive um namorado extremamente babaca (todos precisam ter um na vida); com 17 anos eu descobri que é bacana ensinar os outros; com 17 eu dei muita risada; com 17 eu chorei um bocado e gritei com pessoas com que não devia ter gritado. Com 17 anos eu já odiei andar de busão; com 17 anos eu entrei numa universidade federal renomada (três vivas para a UFMG!); com 17 anos eu descobri que tenho uma paixão maior por Teoria da Literatura do que por Linguística!; com 17 anos eu vi que muita gente joga a vida fora, equanto pouca gente vale a pena; com 17 anos, e eu ainda acho que a melhor banda do mundo é o Rush (apesar de escutar outras e achar que elas são boas); com 17 anos e o melhor presente que posso ganhar é um livro. Com 17 eu saquei que às vezes as pessoas mudam, mas isso não é necessariamente ruim; com 17 eu descobri que amizade on-line não é possível, mas duradoura (Resort 4ever); com 17 eu descobri que ainda sou capaz de escrever algo original (mas ainda acho que as fanfictions foram uma fase maravilhosa que talvez nunca passe de todo! R/H writer sempre!); com 17 anos eu li o final de Harry Potter (e chorei, descabelei, sorri, torci) e considero que essa é a melhor série já escrita! Jo é minha ídola!; com 17 anos eu vi que os teóricos literários podem ser bem idiotas e que às vezes, é melhor gostar de Harry Potter mesmo e ser feliz. Com 17 anos eu saquei que, bem, eu sou eu mesma. E que sou feliz assim. Os 18 não vieram para inaugurar uma nova fase e sim para confirmar tudo o que eu construí e fui nesses últimos 17 anos.
Eu vou sentir falta dos 17... Se o Stephen King tem o 19, eu tenho o 17. Então é com muita nostalgia que eu encerro esse post... É com saudade que amanhã caminho para os 18, lembrando da festa de aniversário surpresa... do cursinho... do primeiro dia na faculdade... do trote que minha família e amigos me deu... de todas as idas ao cinema e ao boliche com os amigos... dos rodízios de pizza... de Harry Potter... do Resort... das conversas tresloucadas no msn... das músicas ouvidas enquanto vagava na internet... das minhas fanfics... das fanfics dos outros!... das conversas com a minha irmã durante a noite e das teorias desenvolvidas do nada... do colo da minha mãe... das trocas de idéia com o meu pai... Não é realmente um adeus, eu sei. Eu não vou deixar essas coisas morrerem porque elas estão eternizadas para sempre na minha memória!
Eu agradeço a todos que estiveram comigo nesses 17 anos de vida! Sem vocês, eu não seria ninguém. Amo todos!
O espírito sem limites é o maior tesouro do homem.
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